{"id":8863,"date":"2026-07-09T16:01:06","date_gmt":"2026-07-09T19:01:06","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/?p=8863"},"modified":"2026-07-09T16:01:06","modified_gmt":"2026-07-09T19:01:06","slug":"arquitetura-livros-e-caminhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/en\/arquitetura-livros-e-caminhos\/","title":{"rendered":"Arquitetura, livros e caminhos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu era mais novo e entrava no Museu Republicano de Itu, pouco notava as exposi\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que ainda me lembro de algumas pe\u00e7as que estavam em exibi\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo, como as liteiras e os instrumentos<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">para tortura de pessoas escravizadas, que eram realmente assustadores. Mas o que mais me saltava aos olhos era o pr\u00f3prio casar\u00e3o: a fachada, revestida de azulejos portugueses; os gradis de ferro, todos trabalhados; e as janelas, in\u00fameras e sim\u00e9tricas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse sobrado do s\u00e9culo 19, onde aconteceu a Conven\u00e7\u00e3o Republicana de Itu, em 1873, a sensa\u00e7\u00e3o era de que a pr\u00f3pria arquitetura contava a sua hist\u00f3ria. O interior tinha o mobili\u00e1rio da \u00e9poca, com cadeiras em estilo medalh\u00e3o, lustres de cristal e pap\u00e9is de parede originais. As portas, antigas, eram dif\u00edceis de abrir. E, quando est\u00e1vamos no t\u00e9rreo, ouv\u00edamos todos os passos de quem caminhava no andar acima pelo ranger do assoalho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sou frequentador ass\u00edduo do espa\u00e7o desde que tinha 13 anos, ou seja, minha rela\u00e7\u00e3o com o Museu n\u00e3o come\u00e7ou com o acervo. Em 1988, montei um jornal com minha turma de escola, apresentei a iniciativa para o pessoal da institui\u00e7\u00e3o e eles acreditaram que a publica\u00e7\u00e3o poderia ter maior alcance.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eram dois cadernos de oito p\u00e1ginas com not\u00edcias sobre os principais acontecimentos de Itu: de entrevistas com candidatos \u00e0 prefeitura at\u00e9 a famosa se\u00e7\u00e3o de recadinhos entre amigos e namorados. Para que eles fossem publicados, as pessoas iam pessoalmente ao Museu e depositavam suas mensagens em uma urna.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Antes dessa parceria, a gente recorria a m\u00e1quinas de escrever e utilizava um mime\u00f3grafo para fazer c\u00f3pias, mas o Museu facilitou o processo ao nos emprestar seu \u00fanico computador. Compartilh\u00e1vamos o conte\u00fado das p\u00e1ginas com os funcion\u00e1rios, que digitavam e depois imprimiam o original em uma impressora matricial para que a gente tirasse xerox e distribu\u00edsse pela cidade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entra e sai para produzir o jornal, os azulejos do sagu\u00e3o da entrada, com pain\u00e9is que contam epis\u00f3dios da hist\u00f3ria de Itu, foram se tornando cada vez mais familiares. O conjunto de retratos dos Convencionais Republicanos \u2013 realizados a partir das mesmas orienta\u00e7\u00f5es, independentemente de qual artista estivesse assinando a obra \u2013 tamb\u00e9m ia se fixando na minha mem\u00f3ria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao mesmo tempo, pelo fato do Museu Republicano ser um espa\u00e7o consolidado na cidade, confesso que n\u00e3o refletia muito sobre o significado de tudo que via e tampouco sobre o funcionamento do espa\u00e7o. S\u00f3 fui entender que a institui\u00e7\u00e3o era uma das sedes do Museu Paulista, ao lado do Museu do Ipiranga, quando passei no concurso p\u00fablico e me tornei t\u00e9cnico de documenta\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tinha 32 anos quando entrei na biblioteca, onde estou at\u00e9 hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha primeira tarefa foi encontrar os exemplares f\u00edsicos de uma lista com aproximadamente trezentos livros sobre o caf\u00e9, j\u00e1 que a gente tinha acabado de receber a doa\u00e7\u00e3o do acervo do professor Edgard Carone. Foram v\u00e1rios meses olhando a lombada e o interior de cada um \u2013 e a cole\u00e7\u00e3o dele tinha mais de 26 mil volumes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquele per\u00edodo, o Museu Republicano promovia semin\u00e1rios sobre hist\u00f3ria do caf\u00e9 e do a\u00e7\u00facar. Todo ano vinham pesquisadores dos Estados Unidos, Col\u00f4mbia, B\u00e9lgica, Cuba, Argentina e eu atendia a todos eles. Ficava deslumbrado porque n\u00e3o estava acostumado a esse ambiente de universidade p\u00fablica, no qual podia trocar conhecimentos com pessoas do mundo inteiro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Cresci em uma casa onde os livros eram presentes, pois minha m\u00e3e era professora do ensino prim\u00e1rio e minha av\u00f3 trabalhava com encaderna\u00e7\u00e3o de fasc\u00edculos. Sempre consultei tudo \u2013 gibis, jornais, enciclop\u00e9dias \u2013, mas, desde que entrei no Museu, a minha rela\u00e7\u00e3o com as publica\u00e7\u00f5es mudou.<\/span><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comecei a me encantar com as ilustra\u00e7\u00f5es que via nas capas, com os diferentes tipos de encaderna\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is e at\u00e9 mesmo com o tempo que cada um daqueles livros representava. O cheiro das p\u00e1ginas, as bordas envelhecidas, as dobras e as marcas de uso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tudo me fascinava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logo no in\u00edcio da minha trajet\u00f3ria,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">passei a ler tamb\u00e9m alguns textos do Edgard Carone. Como o Centro de Estudos, onde a biblioteca se situa hoje, em uma casa pr\u00f3xima ao Museu, foi cedida \u00e0 USP para receber sua cole\u00e7\u00e3o, queria conhecer mais sobre sua vida e obra.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi uma pesquisa que me ensinou imensamente. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Marxismo no Brasil<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de autoria dele, por exemplo, \u00e9 resultado de um trabalho desenvolvido por anos, e contextualiza o in\u00edcio desse movimento no pa\u00eds. O livro ainda referencia as principais publica\u00e7\u00f5es sobre o tema desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20 e quase todas fazem parte da biblioteca que o Carone nos deixou, porque ele era aquela pessoa que gostava de examinar as estantes e descobrir raridades.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um verdadeiro bibli\u00f3filo, amante dos livros, que \u00e9 como me vejo tamb\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O que realmente gosto \u00e9 de entrar pelos corredores da biblioteca e pesquisar em suas fileiras. Meu maior prazer \u00e9 descobrir um livro escondido, e me deter em seus detalhes, da edi\u00e7\u00e3o \u00e0s notas de rodap\u00e9.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apesar de n\u00e3o ter conhecido o professor Carone pessoalmente, imagino que tamb\u00e9m era assim, porque seus alunos contam que ele liberava o acesso aos exemplares que guardava em seu apartamento, com a ideia de que todos pudessem pesquisar e manusear as obras. Por isso ainda me surpreendo quando recebo um pesquisador que responde \u201cdepois eu vejo\u201d quando dou a chance de ele olhar o que ainda n\u00e3o est\u00e1 catalogado. S\u00f3 fico pensando: \u201cComo pode algu\u00e9m da \u00e1rea de Hist\u00f3ria n\u00e3o se interessar em ver uma estante de livros raros?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi dessa forma, organizando as obras nas prateleiras, que acabei encontrando o tema do meu mestrado: a Editora Flama.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Comecei a reparar que, entre os grandes grupos editoriais \u2013 como a Nacional, a Brasiliense e a Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira \u2013, estavam outros tantos menores, mas com trabalhos extremamente significativos. E nessa pesquisa me deparei com a cole\u00e7\u00e3o \u201cPensamento e A\u00e7\u00e3o\u201d, da Flama, que tratava sobretudo de economia pol\u00edtica e socialismo. Por meio dessa s\u00e9rie, fui percebendo a import\u00e2ncia desse pequeno selo de que quase ningu\u00e9m tinha ouvido falar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Durante essa jornada, visitei diversas bibliotecas da USP e da Unicamp e adorava quando eu mesmo podia entrar para selecionar o material. Em algumas institui\u00e7\u00f5es, isso n\u00e3o acontece. \u00c9 o bibliotec\u00e1rio quem separa os pedidos e entrega apenas o que voc\u00ea solicitou pelo sistema. N\u00e3o \u00e9 o mesmo que olhar por si pr\u00f3prio as lombadas, porque nesse processo aparece sempre alguma coisa que n\u00e3o estava no seu horizonte.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Percebo que a experi\u00eancia que tive ao percorrer outras bibliotecas tamb\u00e9m impactou o trabalho que desenvolvo, porque passei a ver o livro de outra forma. Na hora da cataloga\u00e7\u00e3o, fa\u00e7o quest\u00e3o de documentar tudo: desde as dimens\u00f5es at\u00e9 a exist\u00eancia de dedicat\u00f3rias e margin\u00e1lia, que s\u00e3o os grifos, anota\u00e7\u00f5es e rabiscos que aparecem nas p\u00e1ginas. Tem quem n\u00e3o d\u00ea import\u00e2ncia para isso, achando que vai atrasar o processo. Mas, ainda que aquela informa\u00e7\u00e3o possa parecer indiferente, muitas vezes ela \u00e9 exatamente o que o pesquisador procura.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 aquilo que os investigadores falam sobre os bibliotec\u00e1rios estarem do outro lado do balc\u00e3o. Existe a ideia de que, ali, h\u00e1 uma pessoa apenas prestando servi\u00e7o, sem o conhecimento aprofundado sobre o material que disponibiliza. \u00c9 uma vis\u00e3o equivocada e que refuto, principalmente porque carrego comigo o olhar de pesquisador e uma das minhas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 justamente orientar a pesquisa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O privil\u00e9gio de conhecer o acervo \u00e9 o que faz com que a gente possa indicar fontes que est\u00e3o al\u00e9m do que aquela pessoa selecionou.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cVoc\u00ea pediu esse livro, mas tem um outro que pode ser relevante. N\u00e3o quer ver?\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eram coisas que eu n\u00e3o sabia antes, mas hoje tenho a certeza de que tamb\u00e9m contribuo para a reflex\u00e3o de outros acad\u00eamicos. Um dia, inclusive, atendi um pesquisador que estava estudando a Revolu\u00e7\u00e3o de 1932 e n\u00f3s come\u00e7amos a conversar sobre a minha pesquisa em rela\u00e7\u00e3o aos anos 1940, porque, apesar da diferen\u00e7a de data, o contexto era o mesmo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim que cheguei ao Museu e comecei a me inteirar dos semin\u00e1rios, eu permanecia nas depend\u00eancias da biblioteca, que funcionava como um ponto de apoio para os convidados. Era s\u00f3 vez ou outra, quando trocava com uma colega, que conseguia ouvir as falas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na \u00e9poca, jamais poderia imaginar que algum dia faria parte da mesa de confer\u00eancia, contribuindo para os debates. Em 2024, no lan\u00e7amento do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Museu Republicano \u201cConven\u00e7\u00e3o de Itu\u201d: 100 anos em 100 objetos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, por exemplo, assumi o papel de mediador da conversa. E, um ano antes, quando se comemorou o centen\u00e1rio de nascimento do Carone e n\u00f3s realizamos uma mostra sobre ele, me juntei ao grupo de curadores. Tudo isso gra\u00e7as ao meu empenho e dedica\u00e7\u00e3o em cuidar do acervo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A exposi\u00e7\u00e3o ocupou as vitrines do corredor do Centro de Estudos e uma delas foi dedicada exclusivamente aos memoriais que ele escreveu \u2013 uma parte do acervo que n\u00e3o estava catalogada e que os outros s\u00f3 tomaram conhecimento por conta da minha experi\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Anos atr\u00e1s, em uma viagem \u00e0 Argentina, fiz quest\u00e3o de visitar os espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, como os museus e as universidades. Foi incr\u00edvel estar em um pa\u00eds onde voc\u00ea v\u00ea as pessoas lendo o tempo todo, com livrarias e sebos espalhados por todos os lugares.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Entrei em v\u00e1rios desses locais e conheci, atrav\u00e9s dos livros, muito al\u00e9m da Am\u00e9rica Latina. Foi a continuidade de um percurso que come\u00e7ou cedo, no Museu Republicano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois de tantas transforma\u00e7\u00f5es, sinto que minha hist\u00f3ria se parte em dois tempos: antes e depois do Museu. Foi ali que meu olhar se alargou e que, pouco a pouco, fui me tornando algu\u00e9m mais atento ao mundo. Na juventude, meu repert\u00f3rio ainda era estreito, e isso se refletia nas minhas rela\u00e7\u00f5es. Atualmente, reconhe\u00e7o o valor dessas trocas e busco aprofundar, de maneira consciente, cada experi\u00eancia e aprendizado.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era mais novo e entrava no Museu Republicano de Itu, pouco notava as exposi\u00e7\u00f5es. \u00c9 claro que ainda me lembro de algumas pe\u00e7as que estavam em exibi\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo, como as liteiras e os instrumentos para tortura de pessoas escravizadas, que eram realmente assustadores. 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