{"id":8865,"date":"2026-07-09T16:18:53","date_gmt":"2026-07-09T19:18:53","guid":{"rendered":"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/?p=8865"},"modified":"2026-07-09T16:18:53","modified_gmt":"2026-07-09T19:18:53","slug":"a-vida-nos-objetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/en\/a-vida-nos-objetos\/","title":{"rendered":"Life in objects"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre tive fasc\u00ednio por imagens.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde pequeno, pegava livros e revistas que encontrava em casa e ficava horas observando aqueles min\u00fasculos pontos de tinta \u2013 alguns maiores, outros menores, uns mais claros, outros mais escuros. Lembro que aproximava e afastava o meu rosto das p\u00e1ginas e n\u00e3o cansava de me surpreender quando, ao tomar certa dist\u00e2ncia, via os pontilhados se transformando em um rosto de mulher, uma lata de bebida ou uma paisagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Morava em S\u00e3o Bernardo do Campo, munic\u00edpio na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo que ficou famoso por conta da ind\u00fastria automotiva. A cidade concentrou, por muito tempo, uma s\u00e9rie de montadoras e n\u00e3o faltavam op\u00e7\u00f5es de cursos t\u00e9cnicos para quem quisesse seguir na \u00e1rea.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era uma \u00e9poca sem muita informa\u00e7\u00e3o sobre oportunidades de carreira. Desse modo, acabei me matriculando tanto em mec\u00e2nica geral, dentro da Mercedes Benz, como em desenho t\u00e9cnico, e os professores me indicavam a todo momento \u00f3timas op\u00e7\u00f5es de est\u00e1gio sem que eu me interessasse por nenhuma delas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dia, caminhando nas ruas da montadora, vi um senhor japon\u00eas de um lado para o outro com um trip\u00e9 e uma c\u00e2mera na m\u00e3o. N\u00e3o tinha ideia de que a fotografia poderia ser uma profiss\u00e3o, mas, quando vi aquela cena, tive certeza que seria o meu caminho.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sabia que n\u00e3o tinha voca\u00e7\u00e3o para trabalhar em f\u00e1brica de carros, s\u00f3 que, quando contei aos meus supervisores sobre esse senhorzinho, descobri que eu poderia fazer um est\u00e1gio de fotografia l\u00e1 na Mercedes.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O trabalho consistia em tirar fotos de pe\u00e7as desgastadas para auxiliar nos relat\u00f3rios dos pr\u00f3prios ve\u00edculos \u2013 \u00f3bvio, n\u00e3o existia nada mais chato.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi l\u00e1, no entanto, que aprendi a manusear a c\u00e2mera e fui pegando gosto pela fotografia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nos anos 1980, a Kodak tinha rec\u00e9m-lan\u00e7ado um comp\u00eandio dessa \u00e1rea, com 18 volumes que ensinavam sobre o funcionamento da c\u00e2mera e do filme, al\u00e9m de v\u00e1rios exemplos sobre como explorar a linguagem fotogr\u00e1fica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era um livro caro, e eu n\u00e3o tinha os originais, mas consegui ter acesso a um resumo e passava os dias estudando tudo o que tinha ali. Com isso, acabei montando um laborat\u00f3rio em casa e ia, de forma autodidata, aprendendo cada vez mais.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi nesse mesmo per\u00edodo que comecei a descobrir o que havia para al\u00e9m de S\u00e3o Bernardo. Junto \u00e0 minha irm\u00e3, que era um pouco mais velha, passei a ir com frequ\u00eancia a S\u00e3o Paulo, onde visit\u00e1vamos, sempre que pod\u00edamos, alguma exposi\u00e7\u00e3o de arte. At\u00e9 hoje me lembro de quando encontrei um livro do Cartier-Bresson na biblioteca do Centro Cultural S\u00e3o Paulo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Suas fotos, apesar de espont\u00e2neas, t\u00eam uma organiza\u00e7\u00e3o visual impressionante. As linhas, as sombras, e as formas geom\u00e9tricas se encaixam t\u00e3o perfeitamente que parecem ter sido planejadas. S\u00e3o pessoas comuns em situa\u00e7\u00f5es aparentemente corriqueiras, mas registradas de um modo muito tocante.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sei que muita gente o cita como uma refer\u00eancia e diz que, por causa do trabalho dele, decidiu se tornar fot\u00f3grafo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei dizer se foi exatamente isso que aconteceu comigo, porque o que eu sinto \u00e9 que sempre tive uma inclina\u00e7\u00e3o para a arte, mas n\u00e3o sabia o que fazer com aquilo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde crian\u00e7a, desenhava bem e adorava fazer retratos de observa\u00e7\u00e3o. Quando minha m\u00e3e dormia, aproveitava que ela ficaria um bom tempo parada e pegava a minha caneta nanquim para desenh\u00e1-la. No mercadinho do meu cunhado, onde trabalhei por dois ou tr\u00eas anos, n\u00e3o conseguia guardar nada de qualquer jeito. Se tinha que organizar caixas de f\u00f3sforo, ou rolos de papel higi\u00eanico, sempre arranjava uma maneira diferente de dispor os itens nas prateleiras, montando pir\u00e2mides ou outras formas geom\u00e9tricas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 claro que o Cartier-Bresson, nesse sentido, foi uma inspira\u00e7\u00e3o, e hoje mesmo, se tivesse que escolher um nome, diria que o considero o maior. Mas, com aquele livro do Bresson, o que mudou foi a percep\u00e7\u00e3o de que, pela fotografia, era poss\u00edvel extrair beleza das situa\u00e7\u00f5es mais cotidianas, como um menino brincando na rua ou uma senhora tomando caf\u00e9.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 encontrar o meu percurso, por\u00e9m, fui de lugar a lugar.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do est\u00e1gio no laborat\u00f3rio de imagens, passei para a marcenaria do meu irm\u00e3o, mudei para um emprego de ilustrador, onde desenhava manuais de pe\u00e7as automotivas, e acabei em uma oficina de cer\u00e2mica como desenhista, copiando modelos que vinham do exterior e depois desenvolvendo cole\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de produtos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00f3 sei que, quando cheguei no Ipiranga, j\u00e1 tinha passado por tantos lugares e permanecido t\u00e3o pouco em cada um deles que achei que a minha passagem aqui tamb\u00e9m seria transit\u00f3ria. O recorde havia sido cinco anos como fot\u00f3grafo de uma associa\u00e7\u00e3o \u2013 nada que se compare ao meu tempo no Museu, onde estou h\u00e1 30 anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No in\u00edcio, minha fun\u00e7\u00e3o era fotografar os objetos do acervo, o que \u00e9 algo aparentemente simples. A gente olha uma tela, plana, paradinha. S\u00f3 pode ser f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas n\u00e3o, porque para conseguir uma imagem boa de uma pintura bidimensional \u00e9 preciso um conhecimento t\u00e9cnico que poucos fot\u00f3grafos t\u00eam e que, naquela \u00e9poca, eu tamb\u00e9m n\u00e3o tinha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 conseguir desenvolver essa habilidade, tive que pesquisar muito e fui aprendendo o que funcionava mesmo na pr\u00e1tica. Descobri, nesse processo, a import\u00e2ncia dos filtros polarizadores, que funcionam quase como uma janela persiana \u2013 eles deixam passar apenas uma parte da luz, filtrando os raios que v\u00eam de outras dire\u00e7\u00f5es, e ajudando a reduzir os reflexos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E esse \u00e9 um grande desafio para quem fotografa objetos, porque quanto mais brilhante eles forem, mais dif\u00edcil ser\u00e1 retrat\u00e1-los. Na primeira vez que fotografei a cole\u00e7\u00e3o de porcelanas, inclusive, foi preciso desenvolver uma verdadeira gambiarra. Achei uns rolos de pap\u00e9is vegetais que estavam esquecidos em uma sala e constru\u00ed uma esp\u00e9cie de cabana na qual colocava as pe\u00e7as dentro e conseguia, assim, minimizar a luz refletida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outra dificuldade \u00e9 o recuo necess\u00e1rio para capturar as pe\u00e7as de grandes dimens\u00f5es. Quando a gente est\u00e1 em uma reserva t\u00e9cnica ou algum lugar apertado, a gente se vira como d\u00e1, mas o ideal \u00e9 ter espa\u00e7o. No Sal\u00e3o Nobre, por sorte, tivemos alguma margem para trabalhar porque o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Independence or Death<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> tem 4,15 metros de altura por 7,60 metros de largura. Ali, para n\u00e3o distorcer a imagem, a gente precisou fazer o clique em cima de um andaime, utilizando tamb\u00e9m um aparato enorme de ilumina\u00e7\u00e3o e dois geradores de 1200 watts.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O barato de tudo isso \u00e9 pensar que nem mesmo o pintor ou o escultor v\u00e3o ver as obras daquele jeito. E isso acontece porque o olho n\u00e3o consegue capturar as cores de forma t\u00e3o pura \u2013 \u00e9 imposs\u00edvel olhar para um quadro e ter a ilumina\u00e7\u00e3o distribu\u00edda de forma igual. Por isso muitas vezes as pessoas dizem que a fotografia \u00e9 mais n\u00edtida do que a coisa em si.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E n\u00e3o vou mentir que sinto um grande orgulho de ver essas imagens e de perceber que \u00e9 por meio delas que muita gente ter\u00e1 a oportunidade de conhecer as obras \u2013 afinal, n\u00e3o \u00e9 todo mundo que est\u00e1 em S\u00e3o Paulo e nem todas as pe\u00e7as est\u00e3o expostas ao p\u00fablico durante todo o tempo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sinto que, nesse processo, fui entendendo melhor a minha profiss\u00e3o. Quando comecei, havia uma ideia m\u00edtica do artista como algu\u00e9m extraordin\u00e1rio, aquele que era ao mesmo tempo um g\u00eanio e um louco.<\/span><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8866 size-full\" src=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1.png 800w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1-300x225.png 300w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1-150x113.png 150w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1-768x576.png 768w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-1-16x12.png 16w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8868 size-full\" src=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-2.png\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-2.png 600w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-2-225x300.png 225w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-2-113x150.png 113w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-2-9x12.png 9w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-8867 size-full\" src=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3.png 800w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3-300x225.png 300w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3-150x113.png 150w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3-768x576.png 768w, https:\/\/museudoipiranga.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Jose-Rosael-arquivo-pessoal-3-16x12.png 16w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E isso me causou muito medo porque n\u00e3o me sentia nem g\u00eanio nem louco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, olhando para a minha trajet\u00f3ria, entendo hoje que \u00e9 poss\u00edvel trabalhar com arte sem ser necessariamente um artista, e \u00e9 o que fa\u00e7o no dia a dia do Museu quando procuro tirar fotos com excel\u00eancia t\u00e9cnica. E a\u00ed sim surgem imagens que s\u00e3o art\u00edsticas e que considero bonitas, engra\u00e7adas e at\u00e9 mesmo comoventes.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesses 30 anos, tamb\u00e9m sei que tive uma oportunidade que pouca gente tem, porque, aos poucos, fui conhecendo quase toda a cole\u00e7\u00e3o do Museu do Ipiranga. O curioso \u00e9 que, apesar disso, n\u00e3o conseguiria citar um item pelo qual eu sinta especial afeto. E olha que j\u00e1 gastei bastante tempo refletindo sobre isso, tentando encaixar os fragmentos de mem\u00f3ria e encontrar algo que fizesse meu cora\u00e7\u00e3o bater mais forte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cSocorro. Algu\u00e9m me d\u00ea um cora\u00e7\u00e3o. O que h\u00e1 de errado comigo?\u201d, cheguei a pensar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o pr\u00f3prio Cartier-Bresson dizia que, como fot\u00f3grafos, n\u00e3o podemos ter nenhum tipo de preconceito \u2013 e isso inclui tamb\u00e9m, do outro lado, predile\u00e7\u00f5es. E h\u00e1 ainda uma frase do Leonardo Da Vinci sobre sermos como espelhos que refletem tudo e, ainda assim, permanecem puros.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De certa forma, quando estou fotografando, o meu envolvimento \u00e9 objetivo \u2013 o foco est\u00e1 totalmente direcionado para o que ir\u00e1 garantir a melhor imagem e, se a paix\u00e3o intervir, certamente o resultado seria pior.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por outro lado, durante muitos anos, estive completamente voltado para o acervo, com uma vis\u00e3o supert\u00e9cnica, mas me sentia com pouca liberdade para fazer imagens que revelassem a minha percep\u00e7\u00e3o sobre o que estava sendo representado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E acho que recentemente consegui descobrir uma das minhas principais paix\u00f5es: o retrato. O Arnold Newman, nesse sentido, \u00e9 uma refer\u00eancia para mim. Em uma \u00e9poca em que os retratos eram feitos principalmente em est\u00fadios, com fundos neutros e poses formais, ele come\u00e7ou a explorar a forma como as pessoas se integravam no ambiente.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todos os dias, ent\u00e3o, eu saio da minha casa, na rua Bom Pastor, e vou a p\u00e9 at\u00e9 a avenida Nazar\u00e9, na casa vizinha ao Museu onde trabalho todos os dias, em um percurso que atravessa o Parque da Independ\u00eancia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">E mesmo quando digo que n\u00e3o vou registrar nada, nunca consigo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre que passo em frente ao Museu, percebo que o meu olhar se volta para essa equa\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 est\u00e1tico \u2013 o edif\u00edcio \u2013 e o que est\u00e1 em movimento \u2013 as pessoas. Porque s\u00e3o elas, afinal, que d\u00e3o vida aos espa\u00e7os, s\u00e3o elas que deram vida a tudo o que existe em nosso acervo e hoje est\u00e1 armazenado e acondicionado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez seja isso, afinal.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 que tenha algo de errado com meu cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 que n\u00e3o consigo me decidir pelo meu item preferido do acervo, porque s\u00f3 consigo ver toda a gra\u00e7a dos objetos quando eles s\u00e3o manuseados, no cotidiano, no rotineiro, por uma m\u00e3o cheia de inten\u00e7\u00f5es e vida.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre tive fasc\u00ednio por imagens. Desde pequeno, pegava livros e revistas que encontrava em casa e ficava horas observando aqueles min\u00fasculos pontos de tinta \u2013 alguns maiores, outros menores, uns mais claros, outros mais escuros. 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