Moro em frente a uma serra silenciosa, com aquela calma típica do interior. É uma paisagem verde exuberante, mas comum na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Eu e a minha esposa escolhemos Joanópolis porque a cidade estava próxima a uma região para onde viajamos a vida toda, e nosso plano era mudar para lá muito antes.
Construímos nossa casa e calculamos tudo para nos aposentar ao mesmo tempo, mas, no momento em que os planos estavam para acontecer, o Museu do Ipiranga fechou e a discussão passou a ser sobre as mudanças que seriam necessárias para sua reforma. Todos nós queríamos ver a instituição funcionando novamente e decidi que não sairia sem participar desse processo. Seria meu último grande projeto dentro do Museu, e ele só se encerraria com a reinauguração.
Foram nove anos de trabalho, de 2013 a 2022.
Antes, já tinha participado de dois momentos importantes de transformação.
O primeiro, no início dos anos 1990, foi quando o professor Ulpiano Bezerra de Meneses assumiu a direção, e nós – das então equipes técnico-científicas – elaboramos o Plano Diretor. Nele definimos que a nossa especialidade seria a História do Brasil e da Cultura Material, com linhas de pesquisa sobre Cotidiano e Sociedade, Universo do Trabalho e História do Imaginário. O que significava, na prática, que tínhamos o papel de compreender a sociedade a partir de seus objetos, imagens e documentos escritos. Porém, até chegar a esse entendimento, foram inúmeras discussões, com perguntas igualmente básicas e complexas sobre o que era ser um museu de história, qual seria a nossa missão e como faríamos para realizá-la.
Depois, em 1997, nós fizemos uma atualização de tudo que havia sido elaborado. Lembro que estávamos em um debate efervescente, com algumas redações diferentes circulando entre os setores, e tomei a iniciativa de reunir todos os pontos em um único documento e acho que essa organização foi essencial para que a gente pudesse avançar.
Era um tempo em que nós conversávamos sobre tudo coletivamente. E um episódio que me marcou muito nesse período não teve a ver com questões acadêmicas ou administrativas, e sim com uma greve. As unidades da Universidade de São Paulo, que é a instituição que administra o Ipiranga, estavam reivindicando melhorias trabalhistas e, como as demandas não estavam sendo atendidas, decidimos que o Museu deveria fechar suas portas.
Acontece que a diretoria do Ipiranga e a reitoria da universidade não respeitaram essa escolha e mandaram os seguranças entrarem em ação para nos impedir. Eu estava a favor, mas, independentemente da minha posição, acreditava que a vontade da maioria deveria ser respeitada. Lembro então que corri para a porta de entrada, coloquei um banco na frente dela e disse que dali não sairia. No fim, eles foram obrigados a ceder, talvez porque tenham percebido que só nos tirariam à força, caso nos puxassem pelo pescoço ou pelo pé.
Tínhamos uma série de conflitos, mas também momentos que demonstravam uma grande união, e é essa memória que permanece quando penso em tudo que passei dentro do Museu.
Vivi minha vida nas salas e nos corredores daquele prédio e, desde o meu primeiro dia de trabalho, ainda como estagiário, soube que tudo o que queria para minha carreira estava ali.
Entrei inicialmente para ficar um ano e, assim que esse período acabou, comecei a bolar planos mirabolantes para permanecer. Cheguei inclusive a procurar um emprego noturno, achando que, com as contas garantidas, poderia continuar no Ipiranga durante o dia como voluntário. Para minha sorte, surgiu uma vaga dois meses após o encerramento do meu contrato e fui selecionado.
Comecei trabalhando com a professora Miyoko Makino em um projeto de pesquisa de dados para reunir informações sobre os líticos – que são objetos feitos de rochas e minerais. O interessante é que, nessa pesquisa, consegui localizar uma peça que estava desaparecida há anos. Estava na instituição, mas ninguém sabia onde.
Era a Pedra de Gumercindo Saraiva, que foi um dos comandantes das tropas rebeldes durante a Revolução Federalista no Sul do Brasil, e ela tinha sido tombada pelo acervo por ser uma espécie de lápide ou marco vinculado a esse líder político. Acontece que, em algum momento, alguém colou uma etiqueta nela para identificar a tela Fundação de São Paulo. A pedra foi colocada embaixo da pintura, e passou a ser vista como uma espécie de legenda monumental para a obra do Oscar Pereira da Silva. Só sei que, percorrendo as exposições com atenção redobrada para tudo que era lítico, bati o olho e vi que se tratava de uma peça tombada, justamente aquela que estava perdida há quase três décadas. Situações como essa podem ocorrer nas instituições, mas o cuidado com os acervos sempre as corrigem.
Em todo tempo que estive no Museu, me debrucei sobre a pesquisa histórica. Tanto no mestrado, quanto no doutorado, procurei explorar aspectos da instituição que estavam sendo negligenciados. Nós temos um acervo riquíssimo de porcelanas, mas já havia pesquisadores suficientes se dedicando a ele. Para nossa coleção de uniformes militares, por outro lado, ninguém estava olhando. E o mesmo acontecia com o conjunto de armas, que somam cerca de 500 itens.
Minha dissertação de mestrado, por isso, foi a respeito dos uniformes da Guarda Nacional nos anos de 1831 a 1852, com a ideia de entender como a indumentária interfere na organização e no funcionamento de uma associação armada. Já na tese de doutorado, abordei um período um pouco mais vasto, estudando os modos de atuação do Exército Brasileiro no Império, entre 1842 e 1870. O enfoque não era especificamente sobre as armas, mas consegui inserir dados importantes a esse respeito. Notei que, ao longo do tempo, elas foram se transformando em máquinas, com disparos cada vez mais rápidos. E a estética, por incrível que possa parecer, também começava a se fazer cada vez mais presente, com uma série de ornamentos que passaram a acompanhar os armamentos.
Essa ideia é muito forte: um objeto carregado de violência, feito para ferir, que ganha aceitação social por conta da sua beleza.
Nunca tive nenhuma afinidade com uniformes militares ou armas. Pelo contrário, cresci durante a ditadura e falar desse assunto era considerado um horror, por estar ligado a toda violência que sofremos. O que sentia, porém, é que estava diante de um material importante do nosso acervo e que ele não estava sendo devidamente estudado. Tinha um objetivo teórico e uma responsabilidade institucional de desenvolver pesquisas sobre os objetos que faziam parte da coleção, como forma de pensar a história.
Minha principal preocupação era a de construir uma trajetória que não fosse redundante dentro do Museu. Entrei em um cargo técnico de nível médio e depois passei para técnico de nível superior, mas optei por não ir para a área da docência. O ensino é uma atividade que exige tempo e certamente não conseguiria me dedicar o quanto me dediquei para aquele que sempre foi o meu foco: o acervo.
No período em que o Ipiranga esteve fechado, minha atuação seguiu o mesmo direcionamento, porque, para chegar a exposições que apresentem pensamentos críticos, é preciso que as coleções estejam bem documentadas. Queria contribuir para que o Museu promovesse reflexões a partir de um banco de dados estruturado com informações. Também sabia que a instituição tinha uma série de profissionais extremamente qualificados que estavam concentrados nas exposições, e achei que seria mais valioso se pudesse garantir que eles tivessem acesso a materiais de pesquisa historiográfica.

Me concentrei nos dados que estavam incompletos. O Ipiranga tem uma banheira de pedra enorme, que deve pesar aproximadamente 200 quilos, mas ninguém sabia nada sobre ela. No processo de pesquisa, descobri que, durante o Império, quando o monarca ia visitar as cidades, as famílias costumavam acomodá-lo com grande distinção e esse foi um objeto feito para recebê-lo, com a ideia de tornar a sua recepção mais especial.
É uma informação que dá sentido a certas práticas políticas e sociais de uma determinada época, mas que só pode ser trabalhada se você tiver conhecimento sobre ela.
Quando falamos em um museu, estamos nos referindo a um tripé que é constituído por acervo, público e conhecimento. Então não é possível entendê-lo sem refletir sobre quais objetos ele possui, que tipo de público o frequenta, e com que conhecimento a gente quer que esse público se depare. Qualquer pessoa que trabalha em uma instituição como essa, seja docente, funcionário de nível técnico ou superior, precisa ter esse trio em mente.
É como se, antes de abordar as exposições e o conteúdo que os visitantes irão ver, a gente precisasse preparar os bastidores – uma espécie de estofo para o colchão, ou de vigas para um prédio.
Foi justamente nessa tarefa que procurei me envolver por todos esses anos, criando uma base sólida de informações para que os docentes e os frequentadores tivessem acesso e pudessem pensar criticamente a história do país.
Sei que essa escolha atrasou a minha aposentadoria, porém, nas poucas vezes que venho à cidade e me deparo com o que o Museu do Ipiranga se tornou, me sinto orgulhoso da forma que contribuí, colocando o meu conhecimento a serviço da sociedade. Sinto que finalmente posso, depois de tantos anos, seguir o meu desejo de viver no campo e contemplar, ao vivo, a natureza que as pinturas sempre buscam retratar.


