Acho que tudo o que a gente vive, de alguma forma, pode ser aproveitado.
Eu nasci em Belo Horizonte, mas morei em Acesita, em Minas Gerais, e vim para São Paulo ainda pequena. Meu pai era engenheiro de Furnas e precisava morar próximo à subestação de energia. Por isso, quando viemos para São Paulo, moramos na Vila Residencial de Furnas, que era bem afastada da cidade e ficava no cinturão verde da cidade, cercada por plantações de verduras, pinheiros e eucaliptos.
Meus pais investiram muito na nossa formação e nos proporcionaram, desde cedo, vivências regulares e variadas ligadas à atividade física, aos esportes, à música e à cultura. As minhas primeiras leituras foram a cartilha O Livro de Lili, usada para alfabetização em Minas Gerais, e a cartilha Caminho Suave, empregada em São Paulo. Meu primeiro livrinho foi Camilinha no País das Cores. Quando fui para o ginásio, meu pai comprou as enciclopédias Barsa e Life Ilustrada para eu fazer as pesquisas que a escola demandava.
Na época, ele e minha mãe visitaram várias escolas em São Paulo até escolherem uma cujo sistema de ensino lhes agradasse. Eles queriam que a escola nos estimulasse intelectualmente e promovesse nossa curiosidade para a pesquisa. Meu pai gostava de música clássica, ópera, música latino-americana e MPB. Era bem eclético. E eu gostava de dançar enquanto ele ouvia música (risos). Ele nos incentivava bastante com atividades culturais, esportivas, aprendizado de idiomas, instrumentos musicais e interesses em geral, por isso eu tive uma agenda cheia desde pequena.
Mas o caminho foi mais longo até chegar à Biblioteconomia.

Eu gostava de Ciências na escola, talvez por isso eu tenha pensado em estudar Medicina. Cheguei a cursar a faculdade. Quando minha irmã caçula ia prestar vestibular, me trouxe o Manual da Fuvest, porque eu estava sentindo falta dos estudos e pensamos em prestar vestibular juntas.Eu não queria ser médica, porque já tinha me casado e tinha filhas pequenas. Queria passar mais tempo com elas. Então, fiquei olhando o manual da Fuvest e encontrei o curso de Biblioteconomia.
De alguma forma, a minha experiência com a Medicina fez sentido na hora da escolha do curso de Biblioteconomia. Eu gostava da pesquisa para o diagnóstico, descobrir as causas dos adoecimentos. A anamnese com o paciente é o momento em que você tenta entender o que está acontecendo. Na Biblioteconomia, existem as lógicas de busca. Conhecendo como o sistema de busca está estruturado você monta as estratégias de busca para descobrir as informações. Não se trata de descobrir a causa de uma doença, mas, na minha cabeça, havia algo parecido nesse processo de investigação.
Comecei o curso e gostei muito. Eu ouvia alguns colegas dizendo “Eu não gosto de fazer fichas”, “Eu não gosto de catalogar”. E eu pensava: “Nossa, eu gosto de tudo!”.
Acho que encontrei o meu caminho.
Na faculdade, eu me envolvi em muitos projetos e estágios. Ainda estudante fui trabalhar em uma ONG, a SOF (Sempreviva Organização Feminista), e também comecei uma iniciação científica na Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP).
Depois da iniciação científica, acabei continuando na FSP como extra-quadro. Trabalhei com atendimento direto ao usuário, com catalogação, com teses on-line e treinamentos. Eu era muito tímida e dar aula foi terrível pra mim no começo. Mas alguém me disse: “Você é a pessoa que mais conhece sobre o assunto que você vai tratar lá dentro”. Isso fez sentido pra mim, comecei a dar treinamentos e acabei gostando também. Na catalogação, eu tinha facilidade com a indexação porque a nomenclatura técnica da área ainda estava muito fresca na minha cabeça e isso era prazeroso.
Trabalhei muitos anos na biblioteca da FSP e na área da saúde, com redes e tecnologias bastante avançadas. Aprendi muito durante o período. Quando fui para a gestão, tinha a intenção de desenvolver as habilidades relacionadas à nova posição e tentei implementar alguns procedimentos que eu já conhecia.
Cheguei ao Museu há cerca de três anos e, aos poucos, fui conhecendo a Biblioteca, o espaço, as pessoas e o acervo. E o Museu realmente me conquistou. Eu me sinto muito bem aqui. Gosto muito de trabalhar aqui. Estou bastante motivada. Tenho a impressão de que as pessoas vestem a camisa. Todo mundo está trabalhando para fazer as coisas acontecerem, importam-se com o seu público.
Na minha experiência pessoal, cada comunidade tem um perfil coletivo, as pessoas desenvolvem determinados comportamentos e acabam se adaptando à cultura que existe naquele ambiente. As bibliotecas estão imersas nas comunidades e, embora trabalhem de forma semelhante, as pessoas que trabalham em cada lugar agem de acordo com a cultura organizacional da instituição a que atendem. Todas as bibliotecas da USP em que trabalhei – da Faculdade de Direito, da Saúde Pública, da Economia, Administração, Contabilidade e Atuária, e agora a do Museu – são muito diferentes. E não é sobre a maneira de trabalhar na biblioteca. Os públicos são distintos, assim como os ambientes de atendimento e trabalho.
Em uma biblioteca de graduação, há vários exemplares dos mesmos títulos. Os alunos vêm, pegam livros emprestados, estudam para as provas e a biblioteca fica cheia em determinados períodos. Existe um fluxo muito grande. Aqui, os pesquisadores podem procurar a biblioteca em qualquer época do ano e, geralmente, são pesquisadores especializados, como pós-doutorandos, doutorandos e docentes de diferentes estados.
As pesquisas que mais me marcaram foram justamente aquelas em que percebi a importância de o acervo estar disponível para pessoas que procuram algo muito específico. Nós temos, por exemplo, um acervo que atendeu uma pesquisadora da Bahia que estudava praças em cidades baianas.
Também recebemos um padre do Mosteiro de São Bento que veio consultar um CD dos anos 1980. Eu precisei pedir à área de informática que instalasse uma máquina virtual com Windows 3.1 para que pudéssemos abrir o material. Ele disse que só havia encontrado aquele trabalho aqui. Não havia outro exemplar disponível em nenhum outro lugar do Brasil. Ele tinha encontrado uma referência, e nós éramos a única instituição que possuía o material.
Fiquei muito orgulhosa disso.

Ainda há muita coisa interessante para catalogar. Acho que, à medida que avançarmos, vamos descobrir materiais importantes em outras áreas também. Além do público externo, existe ainda o público interno do Museu, que utiliza bastante o acervo no dia a dia. As equipes de conservação, por exemplo, recorrem aos livros para identificar materiais. Há obras sobre medalhas que são frequentemente consultadas e depois devolvidas. São materiais que fazem parte do trabalho cotidiano, instrumentos de pesquisa e consulta.
Também temos bastante material sobre têxteis, porque tivemos uma especialista muito renomada nessa área, que se aposentou, e o acervo que ela indicou para compra ao longo dos anos ficou conosco. Estamos tratando e organizando tudo para facilitar o acesso e permitir que as pessoas saibam o que temos.
É muito interessante quando você olha para uma coleção e percebe a trajetória de uma pessoa. Uma biblioteca pessoal não é apenas um conjunto de livros. Há escolhas, interesses e caminhos de pesquisa. Por meio das dedicatórias, você descobre que as pessoas se conheciam, que eram amigas, que uma admirava a outra. É muito interessante imaginar essas relações.
Nós também temos os Livros do Tombo da biblioteca, nos quais o nosso primeiro bibliotecário, Andreas Dó, registrava manualmente os materiais, com tinta ferrogálica. São dois volumes enormes, que registram o desenvolvimento do acervo da Biblioteca.
Há também histórias curiosas nos relatórios antigos da Biblioteca. Em 1918, por exemplo, foi adotada uma classificação muito usada na Biblioteconomia, a Classificação Decimal de Dewey. Na época, era uma novidade. Foi uma inovação!
Antes, os livros eram organizados cronologicamente. A publicação chegava e era colocada ao lado da anterior, recebendo um número. O problema é que, em um acervo organizado dessa forma, os assuntos ficam dispersos e os autores também. Com a Classificação Decimal de Dewey, consegue-se organizar o acervo por agrupamento dos assuntos e autores e mesmo cronologicamente por data. Tudo ao mesmo tempo.
E fizeram isso sem Google, sem internet.
Encontraram a publicação e trouxeram para o Brasil. Na edição que usamos são quatro volumes. Ele começou a implementar o sistema e, além de catalogar os materiais novos, precisou reclassificar todo o acervo. Fiquei muito admirada de saber que a Biblioteca adotou uma tecnologia tão nova para a época.
Hoje, a relação entre Biblioteconomia, tecnologia e novas mídias continua sendo uma questão importante. Eu não sou alarmista nem pessimista. Gostaria apenas que as pessoas tivessem mais clareza sobre essas tecnologias.
Quando surgiu o Google, eu me lembro de que muitas pessoas diziam: “Agora vamos encontrar tudo no Google”. Os bibliotecários usam o Google desde o começo. Mas não necessariamente para responder às questões que precisam ser respondidas. Nós usamos como instrumento para verificar dados, informações e fontes.
Com a inteligência artificial, acho que estamos dando alguns passos atrás. Ela oferece um resumo pronto, mas você não sabe exatamente de onde aquela informação veio. Às vezes, aparecem referências, mas elas não necessariamente cobrem tudo o que você precisaria consultar em uma pesquisa aprofundada.
E existe outro problema: a inteligência artificial aprende com aquilo que já está disponível na internet. Se houver um erro ou uma informação inventada, isso pode acabar sendo incorporado ao sistema e reproduzido novamente. Então, cada vez menos podemos simplesmente aceitar uma resposta de inteligência artificial como verdadeira.
O que está em um livro, por outro lado, pode ser criticado. Nós entendemos que podem ter havido perspectivas diferentes e compreensões distintas. Mas o livro está ali. Você pode descobrir novas interpretações, mas o registro físico continua documentando os fatos descritos. A nuvem pode ser editada, restrita, ou pode-se simplesmente retirar o acesso à informação.
Meu sonho é ver a biblioteca em um espaço adequado, com condições ambientais apropriadas, com o acervo aberto e acessível para o público circular entre as estantes. Hoje, trabalhamos por agendamento e nosso acervo está fechado. Isso significa que o agendamento da visita é solicitado, assim como as referências dos materiais que se deseja consultar sejam informados para fazermos a reserva dos materiais, pois o acervo está em estantes deslizantes em salas fechadas ao público, embora atendamos público geral, sem restrições.
Também gostaria de alcançar outros públicos, despertar interesse e produzir curiosidade em outros atores sociais. Promover atividades relacionadas à pesquisa, trabalhar em parceria com a área de Educação do Museu, docentes e pesquisadores para promover eventos, treinamentos e debates e integrar cada vez mais a Biblioteca ao Museu.
No futuro, quero que mais pessoas possam conhecer a Biblioteca e que ela sirva cada vez melhor à comunidade. Porque faz parte dos objetivos de uma biblioteca desenvolver o interesse e o conhecimento, especialmente no território onde está inserida.
Eu desejo que essa Biblioteca seja um equipamento de tecnologia social e que receba reconhecimento por sua atuação e esforços de todas as equipes da nossa instituição.


