Quando entrei no Museu, na década de 1990, só na vigilância tínhamos 40 funcionários.
Na limpeza, eram 18. Sem contar o pessoal da manutenção – cinco –, os responsáveis pelas compras – dois –, a equipe de contabilidade – dois –, além da tesouraria, do protocolo, da marcenaria, e assim por diante.
Por que esses números ficaram na minha memória? Acho que nem mesmo os meus colegas da época se lembram deles – e sei que, para a maioria das pessoas, parecem irrelevantes. Mas não são.
O problema era o seguinte: 36 anos atrás, o orçamento para sustentar toda aquela estrutura era minúsculo. A bilheteria, além disso, não dava lucro algum.
O grande fluxo de visitantes vinha das escolas estaduais e municipais – e elas não pagavam. O que entrava ficava restrito aos colégios particulares e a uns poucos turistas, nada mais.
Era com isso que se mantinha tudo.
E foi assim por quatro anos, sem margem, sem sobra, até que o professor José Sebastião Witter começou a pôr em dúvida o modo como as coisas funcionavam – ou, mais exatamente, se funcionavam. No fundo, não havia dinheiro para nada.
Até hoje não esqueço quando ele assumiu a direção, em 1994:
“Como assim, ninguém paga ingresso neste Museu?”, ele não se conformava.
O ingresso custava apenas um real.
Foi então que as escolas passaram a pagar. O dinheiro, enfim, começou a entrar, e pudemos sustentar a nossa estrutura.
Em quase 40 anos, há muita coisa de que não me lembro. Mas acho que as datas e os números não estão entre elas – sou contadora, é o meu trabalho.
Lembro, por exemplo, do dia em que comecei no Museu do Ipiranga: 20 de agosto de 1990.
Em 1992, me casei. Em 1994, nasceu meu filho — e, nesse mesmo ano, as coisas começaram a melhorar financeiramente na instituição.
Além da bilheteria, com a qual passamos a contar, o professor Witter conseguiu uma série de financiamentos de lugares tão diversos como a Fapesp e a Fiesp. Com esses projetos, compramos computadores, renovamos a pintura e reformamos o telhado.
Antes disso, quando chovia, molhava mais dentro do prédio do que fora.
Lá em cima, na torre, a gente espalhava baldes por todo lado, tentando dar conta das goteiras. Nunca era suficiente.
Aos poucos, os professores foram entendendo que o ritmo de um museu não é o de uma universidade. Há visitantes, há exposições, há uma rotina que não cabe no calendário acadêmico. E o orçamento precisa dar conta disso tudo.
Acho que fui descobrindo o que significava trabalhar em uma instituição assim com o tempo. Quando entrei, não sabia, por exemplo, que o Museu guardava uma coleção de numismática com mais de 20 mil peças: moedas gregas, bizantinas, portuguesas, brasileiras.
Depois vieram outras surpresas.
No acervo de brinquedos, havia objetos que me eram familiares demais. As pelúcias da Parmalat, com os mesmos bichos que eu já havia reunido para o meu filho: elefante, panda, foca, porco, leão. A boneca Susi, da Estrela, que fez parte da minha infância. E os carrinhos de polícia de folha de flandres, idênticos aos do meu irmão.
Só sei que acabei convencida pelo museólogo Ricardo Bogus a doar duas bonecas chamadas Valentina, da Estrela, com vestidos originais, e uma bonequinha de louça que eu tinha ganhado de meu pai e guardava com todo o cuidado, na esperança de um dia ter netas. No fim, tive duas. Ainda assim, nunca me arrependi, pois havia algo de irrecusável no argumento de Bogus.
“Cláudia, você acha mesmo que as suas bonecas vão sair das mãos das suas netas intactas?”
Ele tinha razão. E nisso acabei doando também um urso da Lionella que tinha ganhado do meu marido, ainda quando éramos namorados, e uma sopeira de porcelana que tinha sido da minha mãe.
Ainda não vi nenhum desses objetos expostos; estão no acervo. Mas sei que estão bem cuidados, onde quer que estejam.
Quando se entra em um Museu e se vê uma exposição, as peças só estão ali porque muitas pessoas tornaram isso possível. Não apenas os curadores que as escolheram ou os funcionários que trabalham diretamente com o acervo, mas uma cadeia inteira de trabalho. O pessoal da limpeza, que cuida do ambiente e da manutenção das vitrines; os vigilantes, que garantem que nada seja danificado; os conservadores, que se dedicam a cada peça em particular.
As coisas não acontecem simplesmente porque alguém selecionou um objeto de forma aleatória e o colocou em uma prateleira. Há o conceito, a pesquisa, a conservação, a montagem, a expografia – e o meu trabalho também faz parte disso.
Em uma das mostras que está em cartaz, por exemplo, há liquidificadores, batedeiras e outras tantas peças que você encontraria apenas na casa de muitas avós. E, quem fez a requisição para compra, fui eu. Nós estávamos no meio da pandemia e recebemos a notícia de que um colecionador queria vender parte do seu acervo.
Ele morava no interior, fomos de caminhão buscar tudo, mas, antes disso, passei uma sexta-feira inteira registrando mais de cem itens no sistema. Se não me falha a memória, 106 peças. Era tarde da noite, e eu não queria parar: se interrompesse, corria o risco de me perder e confundir o que já tinha sido lançado.
E é claro que me orgulho quando vejo a exposição montada, e identifico esses objetos que, de alguma forma, passaram também por mim.
E pensar que essa vaga caiu no meu colo. Digo isso porque prestei concurso para ser contadora na Universidade de São Paulo e estava trabalhando na reitoria há quase dois anos antes de ser transferida.
Desde 12 de dezembro de 1988.
Para chegar até lá, todos os dias, levava cerca de 1h30 de ônibus, mas nem ligava.
Foi só depois, quando peguei carona com um colega até a avenida Vital Brasil – de onde seguia à Paulista e depois ao Ipiranga –, que ele não acreditou que eu morava naquele bairro.
“Tenta uma vaga no Museu”, me disse.
Eu nem sabia que a instituição também fazia parte da USP, junto com os museus de Zoologia, de Arqueologia e de Arte Contemporânea.
E olha que conhecia bem o Museu do Ipiranga e vinha, desde pequena, andar de bicicleta no Parque da Independência, onde o ar era tão puro que nem parecia o mesmo da cidade de São Paulo.
Também vinha todos os dias 7 de setembro, em visitas escolares. A gente caminhava com a professora de História até o Museu, e o centro de tudo era sempre o quadro Independência ou Morte!.
Ficávamos muito tempo diante dele, entretidos em debates longos sobre até onde poderia ir a imaginação do pintor. E nisso surgiam muitas versões: que D. Pedro parou por disenteria, por causa de um camarão estragado, ou por ter voltado de um encontro romântico com a Marquesa de Santos.
Na oitava série, também fomos ver o filme Independência ou Morte. Os cenários me marcaram de tal forma que ainda hoje me lembro deles. A maioria das cenas foram gravadas no Rio de Janeiro, em locais como o Palácio do Catete, a Quinta da Boa Vista e o Jardim Botânico, mas muitas pessoas acham que tudo foi rodado no Museu do Ipiranga, e usam essa informação para afirmar que D. Pedro viveu no prédio. Isso não tem nenhum fundamento.
Talvez as pessoas prestem concursos para lugares em que não querem estar e depois peçam transferência. Não foi o meu caso.
Mas houve uma dose de sorte. Um dia, na reitoria, me chamaram: havia uma vaga no Museu do Ipiranga e uma necessidade urgente de substituição. O contador de lá sairia, e a transferência de alguém da universidade parecia a solução mais rápida.
Minha chefe na USP autorizou. Fiz a entrevista. A equipe gostou de mim. E nisso se passaram 36 anos.
A sensação que tenho, no entanto, é que nenhum dia é igual. Só de sistemas, trabalho com mais de quatro. O Mercúrio, que organiza a área financeira; o Marte, ligado à gestão de pessoas; o Proteos, por onde passam os protocolos e os documentos; o Juno, que acompanha bolsas de estudo e projetos de extensão. E, além deles, há outros tantos que não estão ligados diretamente à minha área, mas com os quais, de algum modo, também preciso lidar.
Na universidade, cuidava da prestação de contas dos contratos e convênios – um pedacinho pequeno da área administrativa. No Museu, estou mais para uma faz-tudo.
São empenhos, liquidações, balanços, balancetes.
Fora os registros de preço, que são compartilhados entre as unidades. Funciona assim: a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo abre uma licitação para comprar papel, café, equipamentos e as outras podem entrar junto. O procedimento é o mesmo, mas o alcance muda e o volume reduz o custo.
Então, todos os dias, faço essa pesquisa e observo quais são as oportunidades que podem ser aproveitadas. Se alguém está comprando computadores ou tablets, consulto a Informática para saber se aqueles modelos interessam; quando vejo um pedido de lanche, checo com o setor de eventos se vale para a gente.
E tudo pode entrar nesse fluxo.
Em uma dessas compras, pedi 625 pacotes de papel toalha.
Obviamente, o número ficou na memória.
Às vezes acho que podia contar a história desses meus tantos anos de Museu através desses números.
Eles são os “meus” números.
Pode até ter quem ache que isso é um jeito frio de falar sobre as coisas, mas eu sei o que cada uma dessas cifras representam para a nossa história.


