Quando soube do concurso no Museu Republicano de Itu, tinha acabado de completar 18 anos e não fazia ideia do que era trabalhar em um museu, muito menos o que significava o cargo de técnico de documentação.
Tinha independência financeira desde os 16, porque participava do Programa Melhor Aprendiz, mas assim que vi a vaga, achei que poderia ser interessante por se tratar de um cargo concursado. Não sei dizer exatamente o que me chamou atenção no edital, mas a experiência da minha mãe como funcionária do Estado talvez com certeza influenciou, pois cresci vendo a estabilidade, os benefícios e o reconhecimento que ela tinha.

Foi só na prática, porém, que comecei a entender o que era ser funcionária pública em uma biblioteca de um espaço museológico.
Meu primeiro trabalho na biblioteca foi com a Coleção Prudente de Moraes, aplicando códigos de barras em toda a coleção. Eram dias e dias repetindo o mesmo gesto, etiqueta após etiqueta.
Eu mal tinha acabado o trabalho na coleção de Prudente de Moraes quando já estava diante de outra tarefa: o tombamento das publicações do professor Edgard Carone.
Eram 27 mil livros e um único carimbo mecânico para numerar toda a coleção. Como se não bastasse, o aparelho era antigo, funcionava mal e exigia uma força desproporcional, mais tinta do que deveria, e uma atenção redobrada para que o excesso não se espalhasse pelas páginas como uma mancha irreversível.

Além disso, muitos livros chegavam cobertos por um pó fino e esbranquiçado. Só mais tarde descobri que se tratava de hexacloreto de benzeno, um inseticida tóxico proibido desde a década de 1980, mas que ainda estava presente no acervo do Edgard Carone.
Eu trabalhava oito horas por dia, fazia faculdade à noite e seguia sem pausa. Ainda assim, o contato constante com os livros ia abrindo outras frestas: a cada página folheada, surgia uma curiosidade que eu levava adiante no horário de almoço.
Li O Capital, de Marx, e uma infinidade de textos sobre a ditadura militar, mas também manuais de etiqueta e relatos de viagem. Ia de publicações com imagens de tortura e rostos feridos à descrição minuciosa de como se vestir ou se comportar em eventos sociais.
Como as leituras aconteciam no meu horário de almoço e não podia levar os materiais para casa, não conseguia ler os volumes inteiros, mas me detinha em vários trechos de tudo que me interessava antes de guardar as publicações nas prateleiras ou encaminhá-las para catalogação.
Era sempre assim – um livro chamando outro. “Esse parece bom”, eu pensava. “Quero ver melhor.” E, aos poucos, ia adquirindo conhecimento sobre assuntos totalmente diversos, já que, todos os dias, passavam pela minha mesa mais de 30 títulos diferentes.
Nesse período, também participei da organização de três seminários e cheguei a elaborar a identidade visual de dois deles. No primeiro, sem recurso algum, recorri ao Paint, que era um programa básico de edição. Já no segundo, consegui articular com a equipe de informática a licença do Photoshop, e consegui produzir algo mais sofisticado.
Além disso, eu costumava participar ativamente das comissões administrativas, como titular ou suplente, e nos reuníamos semanalmente para deliberar assuntos de todo tipo: falávamos sobre segurança, normas para uso do espaço, parcerias institucionais. Como o Museu Republicano é uma instituição pequena, todo mundo fazia um pouco de tudo, e eu me envolvia em tudo que estivesse ao meu alcance.
Sem contar todos os eventos que me inscrevia. Eram cursos relacionados à conservação de papel, ao acervo bibliográfico, e tudo que pudesse estar relacionado à minha área. Viajava para Campinas, São Paulo, e não media esforços para aprender mais.
Por mais que o trabalho envolvesse algumas tarefas mecânicas, eu gostava do que fazia, mas, depois de cinco anos, não tinha intenção de continuar na área de biblioteconomia e senti que podia contribuir mais com o Museu.
Queria explorar outras possibilidades.
E foi justamente isso que aconteceu quando passei para a área de documentação e realizei um curso de um ano sobre organização de arquivos, o que me deu uma base de conhecimento sobre o acervo documental. Ali permaneci por sete anos, até seguir para a iconografia, onde pude me aprofundar ainda mais nesse universo. Quando comecei, percebi que grande parte das coleções ainda não estava organizada, e muitos itens não tinham seu conteúdo identificado ou listado. Na Iconografia, assim como na documentação, a organização dos documentos obedece a uma lógica distinta da biblioteca, onde cada item é tratado individualmente.
Antes disso, cheguei a atender um consulente que buscava uma foto de uma praça da cidade. Ele precisava reconstruir a fachada de uma casa tombada pelo CONDEPHAAT, mas que havia sido demolida, e procurava alguma referência do que ela tinha sido. Nós procuramos e não encontramos.

Só depois, com a reorganização do acervo, a imagem apareceu, mas, naquele momento, a casa já tinha sido reconstruída e não sei dizer em quais materiais eles se basearam para desenvolver o novo projeto.
São já três anos reorganizando o acervo, e é nessa tarefa que tenho depositado todo o meu conhecimento. Não se trata apenas de listar, mas de inscrever cada item dentro de um sistema que permita que ele seja encontrado por outras pessoas, depois de mim.
Ainda é, em parte, um trabalho braçal, mas atravessado por muita pesquisa. E é nesse cruzamento que as coisas começam a aparecer.
No início, o que eu sabia sobre o Museu era o básico. Nada além de que funcionava no sobrado onde aconteceu a Convenção Republicana de Itu, em 1873, e que essa reunião foi o marco originário da campanha republicana e do Partido Republicano Paulista.
Era o essencial aprendido na escola. Mas, quando se começa a consultar o acervo, esse contorno inicial logo se desfaz e outras camadas vão surgindo.
Nesse processo, por exemplo, descobrimos uma série de informações que ajudam os consulentes, os curadores e toda a equipe do Museu. Para se ter uma ideia, quando o caderno “Galeria de Retratos dos Convencionais de 1873” foi lançado, em 2018, esse processo ainda não tinha começado e a fotografia do Elias Lobo não foi incluída porque o material não estava organizado e não tínhamos conhecimento sobre ela.
Então esse é só um dos exemplos de como o nosso trabalho serve de base para a pesquisa, já que é nele que as informações vão sendo reunidas, organizadas e sustentadas para que outros, depois, possam seguir a partir dali.
Assim que comecei no Museu Republicano, foram duas surpresas. A primeira, a ligação entre ele e o Museu do Ipiranga, que juntos formam o Museu Paulista. A segunda, a descoberta de que ambos eram administrados pela Universidade de São Paulo.
Mais tarde, então, recuperei a memória da primeira vez em que estive no Museu do Ipiranga.
Foi um dia cheio, numa excursão da escola: passamos também pelo Parque do Ibirapuera, caminhamos pelo Parque da Independência. Mas o que ficou foi aquela sensação de não conseguir apreender tudo de uma vez e, sobretudo, a curiosidade sobre as pessoas que atuavam ali.
Um pensamento não saía da minha cabeça:
“Nossa, como deve ser incrível trabalhar aqui!”
“O que será que é preciso estudar para atuar em um museu?”
No fim, estudei engenharia elétrica – uma área que nunca exerci profissionalmente – enquanto me aproximava, de fato, das imagens e da catalogação, que acabaram ocupando outro lugar na minha trajetória.
Tenho muito orgulho do que aprendi ao longo desses anos, porque vejo uma bagagem construída aos poucos, com esforço, e que passa tanto pela conservação quanto pela organização do acervo.
Acho que a memória da impressão que tive nessa primeira visita ao Museu do Ipiranga passou a me acompanhar, de alguma forma, por toda a minha trajetória, porque ainda hoje me surpreendo quando percebo que, no fim, eu trabalho para essa instituição também.
Por isso, sempre que posso, gosto de reforçar essa relação e digo com muito satisfação:
Trabalho para o Museu Republicano de Itu, para o Museu Paulista, e para a USP.
Há quase 20 anos trabalho em uma instituição pública, atuando diretamente com documentação, organização e preservação de acervos históricos. É nesse lugar que me reconheço hoje: participando da construção da história, da memória e do acesso ao conhecimento.


