Na segunda-feira — aquele dia invisível para o público, em que o Museu do Ipiranga está fechado — é quando tudo acontece.
Para algumas áreas, pode até ser um dia tranquilo. Na zeladoria, porém, entramos numa correria danada para cuidar de toda a infraestrutura do Museu.
É dia de checar o funcionamento dos sanitários, testar os geradores, verificar os sistemas de alarme e detecção de incêndio, conferir os sistemas de iluminação, multimídia, câmeras de segurança e resolver uma infinidade de outras demandas.
E o mais curioso é que, na terça-feira, mesmo com a sensação de dever cumprido, tudo começa outra vez. Novos problemas aparecem, surgem demandas inesperadas e muitos serviços acabam ficando para a próxima segunda-feira.
Há reparos que não podem ser feitos com o Museu aberto ao público, e nem sempre dá tempo de resolver tudo nas poucas horas antes ou depois do fechamento.
No período de chuvas, o mais complicado é lidar com as quedas de energia. Embora tenhamos geradores, já enfrentamos situações em que eles não entraram em funcionamento.
Sem contar quando crianças disparam os alarmes de incêndio porque acham divertido apertar os botões. Nessas horas, a equipe de bombeiros precisa correr para verificar a ocorrência, tranquilizar o público e desligar a sirene.
E pensar que, quando eu tinha nove ou dez anos, o meu sonho era comprar o Museu do Ipiranga e transformá-lo na minha casa. Na minha imaginação, eu brincaria pelos corredores enquanto meu mordomo atenderia aos convidados.
Cresci empinando pipa e andando de carrinho de rolimã no Parque da Independência. Meu pai, que era ferramenteiro, construiu para mim quase um caminhãozinho: um carrinho com uma roda enorme.
Nunca esqueço o primeiro dia usando aquele brinquedo. Cheguei achando que iria arrasar, até perceber que, justamente por causa do tamanho da roda, ele era muito mais lento do que os outros.
De tanto frequentar o Museu, era como se eu o conhecesse de trás para frente. Mesmo assim, jamais imaginei que um dia trabalharia ali.
Foi tudo por acaso.
Meu pai tinha dois carros e estava tentando vender um deles. Um vizinho que era funcionário do Museu, ofereceu uma vaga extra na garagem e, por conta desse contato, acabou subindo até a minha casa. Quando entrou, viu um computador no meio da sala — algo raríssimo no começo dos anos 1990.
Contei que trabalhava como Analista de Sistemas e ele comentou sobre um concurso aberto no Museu do Ipiranga.
Me inscrevi sem grandes expectativas. Eram mais de cem candidatos para uma única vaga. Ainda assim, acabei sendo aprovado.
Antes disso, eu trabalhava em uma empresa que prestava serviços para a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo — e estávamos acostumados com uma superestrutura, cheia de computadores.
Por isso, foi um choque chegar ao Museu e descobrir que não havia praticamente nenhuma máquina.
Um dos grandes problemas era o acesso às coleções, disponíveis apenas fisicamente, o que tornava qualquer consulta extremamente demorada. A ideia era criar um banco de dados, e minha contratação marcou justamente o início desse processo, começando pela seleção e aquisição dos computadores.
Não foi fácil.
Entrei em 1991 e, naquela época, computadores eram caríssimos. Conseguimos comprar alguns equipamentos para atender todo mundo. Era preciso marcar horário para usar, não existia rede interna e, para piorar, as máquinas quebravam o tempo todo.
Mesmo assim, conseguimos criar um banco de dados pioneiro em São Paulo no uso de imagens — isso entre 1994 e 1995.
Hoje parece algo simples, mas naquela época praticamente ninguém falava em acessar imagens pelo computador. Compramos um scanner, digitalizamos o acervo e fizemos isso porque não fazia sentido tratar uma coleção material recorrendo apenas a textos.
Foi um trabalho de muitos anos, construído com a colaboração de diversas equipes. E, mesmo hoje, com a adoção do Tainacan — software livre voltado para repositórios digitais — muita gente do Museu ainda recorre ao sistema antigo quando precisa pesquisar informações ou emitir relatórios sobre a coleção.
É curioso perceber como, ao longo dessas mudanças, o meu próprio trabalho dentro do Museu também foi se transformando.
Saí da informática e fui parar na zeladoria.
Muita gente não entende como um Analista de Sistemas pode atuar nessa área, mas a verdade é que o Museu se tornou completamente informatizado.
Antes da reforma, não havia ar-condicionado, sistemas modernos de combate a incêndio ou automação. Os interruptores eram todos manuais.


Depois da ampliação, iluminação, climatização, sistemas de detecção e combate a incêndio, sistema de câmeras de segurança e diversos outros sistemas passaram a funcionar via computador. Hoje, praticamente tudo depende de tecnologia.
Acabei entrando nessa área justamente por ser um dos funcionários com maior familiaridade com equipamentos automatizados.
E tem sido um desafio enorme.
Ainda mais quando lembro que o Museu chegou a fechar por conta de alguns riscos identificados. De certa forma, a zeladoria falhou naquele momento.
Desde então, carrego comigo a responsabilidade de garantir que uma situação assim nunca mais aconteça e que a manutenção do prédio seja sempre a mais eficiente possível.
E essas demandas nunca param.
Chegam o tempo todo, todos os dias. Muitas vezes, até de madrugada. Por isso, durmo com o celular ligado: se acontecer alguma emergência, preciso tomar as primeiras providências e avisar a Direção.
A verdade é que, mesmo na época da informática, minha preocupação nunca se limitou ao meu setor.
Nunca esqueço o dia em que o reitor da Universidade de São Paulo veio visitar o Museu e precisei correr até a diretoria para avisar que um cano havia estourado no subsolo. Pedi que cancelassem a passagem por aquela área para que conseguíssemos resolver tudo a tempo.
Acho que nunca consegui ficar indiferente a nada que envolvesse o Museu.


