Foi tudo muito rápido.
Na mesma semana, fiz entrevista, exame médico e já comecei no Museu do Ipiranga.
A vaga era para auxiliar de limpeza e a pessoa que me entrevistou fez basicamente duas perguntas: se eu estava disposta a trabalhar nessa área e se teria problema com o deslocamento.
Moro na Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, e o Ipiranga está na Zona Sul. De um ponto ao outro, são três horas de condução.
Acordo às 3h todos os dias, senão chego atrasada.
Não posso reclamar. Antes de aceitar esse emprego, perdi a conta de quantos currículos havia mandado sem nenhuma resposta.
Estava desempregada há quatro anos e me mantinha fazendo bicos. Se não via nada que pudesse ser considerado errado, aceitava o que aparecesse. Acompanhei eventos, distribuí panfletos nos faróis e fiz de tapioca a bolo caseiro para conseguir alguma renda.
Não era falta de experiência. Já tinha trabalhado em lavanderias, escolas e casas de repouso. Com a chegada da pandemia, porém, ficou difícil conseguir qualquer trabalho registrado.
Por isso, quando me chamaram para a entrevista, estava disposta a tudo, e não recusaria nenhuma função ou região da cidade. Ainda assim, no meu primeiro dia, não compartilhei essa ideia com ninguém, mas pensava que não ficaria muito tempo.
Nunca tinha entrado em um lugar como aquele. Não sabia o que era um museu, via só pela televisão, e não tinha tido nenhuma oportunidade de visitar.
Ao mesmo tempo, várias coisas que vi expostas lembraram a minha infância. Quando olhei para o quadro principal do Salão Nobre, com homens a cavalo empunhando espadas, imaginei o meu avô, que era caçador e contava das suas aventuras no meio do mato.
No sítio em que vivíamos, em Macaíba, no Rio Grande do Norte, tínhamos o mesmo ferro de passar e as mesmas louças que encontrei na mostra “Casas e Coisas”. Me recordo até hoje de quando limpei essa sala pela primeira vez e fiquei revivendo a minha infância. Emocionada com essas recordações, até chorei, tomando cuidado para que ninguém visse.
Também gostei muito de conhecer a pintura da Maria Leopoldina e perceber que, apesar de todas as humilhações e violências, era uma mulher bonita. Sei que a história dela com D. Pedro I não foi fácil – ele era terrível –, mas me identifiquei com a postura dela. Nós passamos por situações desafiadoras, e continuamos bonitas, arrumadas, maquiadas para que ninguém consiga perceber o que está por trás.
Até hoje, parece que não caiu a ficha que estou no Museu.
De repente, estava dentro de um monumento. E agora sou eu quem explico para os outros do que se trata esse espaço. Se me perguntam, digo que é um lugar onde se conta uma história sobre as pessoas que viveram antes de nós no Brasil, como D. Pedro.
É o que sei, e assim repasso.
Quando cheguei, limpava todos os cantos do edifício. As salas expositivas, as escadas, os corrimãos, a copa. E o que não conseguíamos fazer na presença do público ficava para o momento em que o Museu estava fechado. Todas as segundas, por exemplo, pelo menos duas de nós se dedicam ao carpete vermelho. A orientação é usar um pano úmido e depois ir secando com aspirador para não mofar. É demorado, mas a gente consegue.
A limpeza daqui não é ruim, são só detalhes. Nem se compara com o que tinha que fazer nos asilos. Lá, quando não havia nenhum idoso precisando de cuidados, sobrava o serviço na cozinha e era um trabalhão danado. Panelas enormes para lavar, chão para esfregar e assim ia.
Hoje, estou apenas nos banheiros. É o que prefiro, pois sou agitada e não gosto de ficar parada. Nessa função, estou sempre conferindo se tem algum vaso entupido, se falta papel ou se o lixo precisa ser esvaziado.
Nos fins de semana, acontece um pouco de tudo: vômito, diarreia, sangue de menstruação. Algumas colegas não aguentam, enjoam, passam mal e pedem para sair, mas acho que estou acostumada. Às vezes dá um negocinho, e logo passa.
Já sou uma das mais antigas da minha área, com cinco anos de casa, e direto fico responsável por passar as tarefas para quem chega. Explico que não pode usar cloro no piso, porque mancha. Que a água deve ser passada no pano, e não jogada direto no chão, e que a única exceção para essa regra são as sacadas e os banheiros. A cortina do auditório, por exemplo, é só pano branco e bicarbonato. Se usar água sanitária ou outro produto, irá manchar na hora.
Aqui a limpeza é diferenciada.
Meu salário não é alto. Se economizo, dá para uma coisinha ou outra, como um sorvete ou um chocolate. Mas gostaria de poder guardar mais.
Às vezes falo, da boca para fora, que vou sair do Museu. E todo mundo responde:
“Você é agradável, não sai não”.
Uns até brincam que estou criando raízes, que tenho uma planta no pé, e ela se chama “planta museu”.
O que mais gosto é a forma como me tratam. Nos outros lugares por onde passei, nem sempre foi assim e jamais imaginei que seria respeitada como sou.
Para vocês terem uma ideia, tenho pressão baixa, inventei de fazer regime e por duas vezes desmaiei no meio do expediente. Estou tratando, nunca mais aconteceu, mas, nos dois episódios, recobrei a consciência no hospital, com os meus supervisores junto comigo. Eles não me deixaram sozinha e só descansaram quando meu filho conseguiu chegar para me acompanhar.
Não puxo o saco de ninguém, mas as pessoas gostam do meu trabalho. Não sei se é simpatia ou qual doce corre no meu sangue.
É claro que, se me transferirem, não veria problema, pois a última coisa que quero é ficar novamente desempregada.
Também não gostaria de ficar apenas na limpeza. Quero subir mais degraus.
Um dia, uma outra funcionária veio me dizer que tenho estudo e não deveria estar nesse setor. Fiquei triste e me senti desmerecida, é óbvio, pois é a porta que está aberta para mim e sou agradecida por isso, mesmo querendo que outras ainda se abram.
Terminei o ensino médio durante os dois primeiros anos no Museu. Saía do Ipiranga e ia direto para a escola. Foi um período puxado, em que ficava cansada, com sono, mas nunca pensei em desistir.
Tenho vários sonhos, queria imensamente poder realizá-los, e sinto que a maioria dos meus colegas me puxa para cima. Uns falam para eu prestar concurso, outros dizem que posso conseguir bolsa em uma universidade, e já teve até quem se oferecesse para pagar o curso que é exigido na área de segurança.
“Puxa, você é pequenininha, mas trabalha muito e merece mais”, me dizem.
É a primeira vez que tenho essa torcida e acho que é justamente ela que me motiva a permanecer no Ipiranga.
Sempre que sobra um tempinho, uns minutinhos que sejam, subo no Mirante para observar a imensidão da cidade.
Lá em cima, não sei explicar, mas sinto uma energia tão boa que me leva a acreditar na vida e a continuar sonhando.


