Quando era uma estudante de História e não tinha muita noção sobre a área em que iria trabalhar, fiz uma lista dos lugares onde poderia tentar estágio e coloquei nela o Museu do Ipiranga.
Já conhecia o Museu da época de escola e tinha ficado totalmente deslumbrada pelo prédio, só não sabia direito que tipo de função poderia desempenhar nele.
Mesmo assim, organizei meu currículo e fui, bem à moda antiga, entregá-lo pessoalmente. Por sorte, a funcionária de Recursos Humanos me informou que haveria um concurso interno dali alguns dias e me perguntou se eu tinha interesse.
Não sei dizer nem quantas pessoas estavam concorrendo, mas passei.
Comecei em 11 de setembro de 2001, junto com o ataque às Torres Gêmeas de Nova York, em uma data que, para qualquer pessoa que viveu aquele momento, ficaria para sempre na memória.
Não foi uma recepção comum, é claro. Ninguém conseguia falar em outra coisa, sem acreditar no número de mortos e nas imagens que circulavam do atentado. Por isso, só dois ou três dias mais tarde, quando o choque diminuiu, fui entender quais seriam as minhas tarefas e processar o que significava trabalhar em um museu.
Estava ali para realizar o atendimento ao público. A gente recebia os pesquisadores, conversava sobre a linha de investigação de cada um e separava o material.
Nunca me esqueço de quando um dos consulentes pediu para ver a carta do padre Anchieta. É um documento de 1579 e que foi encontrado somente em 1926 por conta de um leilão em Londres. Para se ter uma ideia, o escritor Mário de Andrade e outros modernistas fizeram uma campanha e conseguiram juntar 200 libras (o equivalente a 30 sacas de café na época) para comprar a carta e trazê-la ao Brasil.
De tão preciosa, a correspondência ficava em um cofre e só podia ser acessada na presença de ao menos duas pessoas. Nem imaginava que o Museu poderia ter algo assim, tão anterior à Independência, mas, quando vi a assinatura original e todo o peso histórico que ela carregava, foi uma emoção indescritível.
Me envolvia tanto com as solicitações dos pesquisadores que comecei a perceber a necessidade de organizar melhor as coleções para atender as demandas deles. Não conseguia ficar parada em apenas uma área e, por isso, acabei migrando logo para a catalogação. De lá para cá, passei pela curadoria, pela administração, e acabei na assistência da direção, que é onde estou agora.
No início desse percurso, um dos momentos mais marcantes foi quando trabalhei com o professor Paulo César Marins na mostra “Imagens recriam a história”. Foi a primeira vez, dentro do Museu, que colaborei com um projeto do início ao fim: do pedido de fomento até a preparação da lista de convidados e do buffet de inauguração.
Enquanto participava do processo curatorial, e discutia aspectos que iam da pesquisa à comunicação visual, também estava envolvida na parte operacional, prestando contas e fazendo pagamentos.
Acompanhava cada decisão: opinava sobre a paleta de cores das impressões, a montagem das vitrines, e os aspectos referentes à limpeza das obras e a necessidade de restauro. Quando se monta uma exposição, você não está a par apenas de que itens da coleção estarão à mostra, mas toma conhecimento das etapas que acontecem para que o museu siga funcionando. E isso fez com que meu interesse se voltasse para a área administrativa.
Essa experiência, de alguma forma, também me transportou para o trabalho do meu pai, que era ferramenteiro da Ford. Ele passava os dias na linha de montagem, fabricando e ajustando as peças das máquinas que montavam os carros.
Foi a época da explosão do movimento sindical, com os metalúrgicos do ABC Paulista e, dentro da empresa, meu pai participava ativamente da Comissão de Fábrica, que é como são chamadas as associações criadas pelos próprios trabalhadores. Cresci vendo a forma como ele se colocava, organizando lutas e reivindicações para a melhoria das condições que todos enfrentavam. E acho que, no meu caso, o fluxo de produção apareceu de uma forma ainda mais ampla, me fazendo enxergar o papel de cada trabalhador dentro da engrenagem do Ipiranga.
Ao mesmo tempo, na escola, tive uma professora que me ensinou imensamente e, nas aulas dela, aprendi o que eram as relações de poder e de como era preciso enfrentá-las para mudar os rumos dos acontecimentos. Pelo modo como contextualizava a história do Brasil, por exemplo, entendi que o D. Pedro I não proclamou a Independência porque tinha acordado bem intencionado. Vi que havia muito por trás daquele ato e o que estava escondido nos bastidores eram as pessoas que tinham lutado para que aquilo acontecesse.
O que se conta nos livros, por meio de alguns poucos protagonistas, é aquilo que se faz a partir de muitos.
Dentro do Museu, notei que minha motivação não estava na pesquisa – provavelmente por isso nunca quis fazer mestrado ou doutorado. Nas exposições em que participei, assim que começava a ler as referências, minha cabeça já se voltava para o que seria preciso executar dentro do que estava sendo proposto. Não queria ficar discutindo questões teóricas enquanto tinha um problema concreto de vazamento para ser resolvido.
O meu desejo era criar instrumentos que pudessem melhorar o presente das pessoas na instituição. E, na administração, percebi que era possível.
Foi como se eu conseguisse, de repente, fazer uma articulação com as diferentes áreas, pois as questões administrativas e financeiras perpassam todas elas – e eu lidava com ambientes tão diversos como o almoxarifado e a marcenaria.
Por conta desse envolvimento, acabei sendo convidada para assumir o cargo de assistente da direção. Era uma vaga sem nenhum benefício extra, com uma função que estava sendo criada naquele momento em troca de, sei lá, qualquer oração ou pensamento positivo.
Fazia dez anos que estava no Ipiranga. Não tinha mais por onde crescer e, ao mesmo tempo, queria assumir novos desafios, fossem eles quais fossem.
Só sei que, de repente, me vi como representante da direção do Ipiranga em infindáveis reuniões que contavam com a presença de membros da Universidade, da construtora e de outras empresas gestoras da reforma e restauro do edifício do Museu iniciada em 2019. E isso aconteceu no meio da pandemia, com todo mundo online, e discutindo a quantidade de microestacas que deveriam ser colocadas durante o processo de escavação.
Participava, ao lado de arquitetos e outros profissionais, da discussão de assuntos que não eram do meu setor, mas o que dizia, em cada um dos encontros, era que a minha contribuição estava na experiência que tinha dentro da instituição.
Se seriam cinco ou dez microestacas, não seria eu quem decidiria, mas era a única presente que sabia dizer porque uma laje deveria estar em determinado lugar para atender a uma necessidade do público. Ou porque as janelas precisariam de telas de proteção para evitar a entrada de pombos.
Foi um trabalho imenso. E até hoje brinco: maldita hora que disse sim.
Mas não me arrependo nem por um minuto.
Antes da reabertura, quando a equipe interna fez uma visita para inaugurar a escada rolante, recém-instalada, chorei do início ao fim.
Fui invadida pelo mesmo sentimento daquela menina que eu era na quarta série, quando visitei o Museu pela primeira vez e me senti dentro de um castelo.
O Museu tomou uma proporção que jamais conseguiria imaginar, mas o trabalho, ao contrário do que todos pensam, não acabou com a reinauguração. Quando a obra foi entregue, fizemos uma lista com mais de 300 pendências, de problemas na ligação de esgoto a pedras que ainda faltam no piso.
Com a pandemia, os valores foram subindo, o custo da reforma aumentou e a gente não teve condições até agora de comprar o mobiliário interno do ambiente administrativo. É lógico que gostaríamos de abrir as portas com todas as áreas comuns mobiliadas, mas não conseguimos.
Em paralelo, ainda estávamos entendendo o que significava administrar um museu daquela magnitude, pois não estávamos acostumados a algo tão grandioso e era preciso reaprender como tudo funcionava.
No início, tivemos uma demanda enorme de eventos por parte dos patrocinadores. Na inauguração, o gelo seco usado no ambiente acionou o detector de incêndio e o prédio todo começou a apitar. Em outra cerimônia, o cardápio com alimentos fritos aumentou a temperatura e fez o alarme disparar novamente. E aí percebemos a necessidade de elaborar um documento com todas as orientações sobre o que se pode ou não fazer no prédio.
A cada 15 dias, nós temos uma plenária para discutir os assuntos de interesse do edifício do Museu do Ipiranga, que é o momento em que reunimos os envolvidos em cada uma das áreas. Digo que é a nossa reunião de condomínio, com toda a loucura que uma reunião de condomínio envolve ao juntar no mesmo ambiente aqueles que amam e detestam cachorros.
No começo, tinha muita dificuldade de participar porque me sentia responsável e levava as reclamações como se fossem dirigidas a mim.
“Eles não entendem que não consigo fazer tudo”, pensava.
Depois parei de me angustiar por todos os problemas que ainda não foram resolvidos e entendi que, por mais que os relacionamentos entre as pessoas possam ser complicados, nós precisaríamos de um espírito de colaboração para que o Museu funcione da melhor forma.
Apesar do Museu do Ipiranga viver lotado, e todos os visitantes estarem impressionados com o que o prédio se tornou, sinto que o projeto não foi totalmente concluído e que não posso desistir enquanto não conseguir ticar todos os itens que ainda faltam – por volta de 280 atualmente.
É claro que o Museu é um organismo vivo e sempre haverá algo para melhorar, mas entendo que preciso terminar tudo aquilo que foi prometido durante a reforma.
Não posso subir no telhado para arrumar as infiltrações ou fabricar e transportar os móveis sozinha. Mas consigo preparar as licitações, apontar as falhas em relatórios e pressionar para que tudo que estava na proposta original seja entregue. Também não pretendo parar tão cedo e, como a aposentadoria compulsória é aos 75 anos, restam ao menos 27 pela frente.
Tenho consciência de que não estou em um movimento sindical, mas sinto que o trabalho funciona de forma parecida: os avanços são frutos de um esforço compartilhado e as conquistas beneficiam tanto quem está dentro do Museu quanto quem o visita.
Quando vim para o Ipiranga, sem nem saber ao certo que função ocuparia, nunca poderia supor que seria uma das pessoas responsáveis por uma transformação tão grande e que encontraria na minha voz um instrumento para demandas coletivas.
É um legado que permanecerá, e me orgulho profundamente de fazer parte dele.


