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Museu do Ipiranga

Em 2022, numa das primeiras cessões de espaço para eventos de patrocinador, estávamos já fazendo a desmontagem e tudo caminhava bem até um cano estourar. Na fachada! Eram umas 2h, 3h da manhã. 

Acho que foi a minha primeira experiência acompanhando um evento externo. Eu, sozinha, estava tentando cobrir a desmontagem inteira, que ocupou todo o Acolhimento e a área externa do Museu, quando chega uma pessoa de uma das empresas fornecedoras, dizendo que tinha um problema de vazamento na fachada.  

Pela tranquilidade com que ele falou, achei que se tratava de algo pequeno, mas, assim que saí do prédio, tomei um  susto: o volume de água era tanto que parecia que tinham instalado um chafariz novo na frente do Museu.

Eu não tinha a menor ideia de onde ficava o registro para conter a água. A reforma tinha acabado de acontecer, e todo mundo ainda estava conhecendo o prédio. Eu e o Luís, um vigilante do período noturno, ficamos rodando um tempão com aquele “rio” escorrendo, procurando a bendita válvula no meio da madrugada. Até que eu desisti de tentar resolver sozinha e liguei para a professora Rosaria Ono, diretora da época, e foi preciso acionar com urgência a empresa responsável pela obra.

O episódio aconteceu porque tínhamos permitido a instalação de uma iluminação na fachada e, a partir daquele momento, percebemos que era urgente rever o que poderia ou não ser permitido em eventos de cessão de espaço. Intervenções na fachada? Nunca mais!

Já passei por várias situações difíceis nesses quatro anos de Museu, mas essa, com certeza, está no Top 3. 

Foi um momento intenso, mas também bem importante para minha história no Museu, porque, a partir desse dia, senti que conquistei de verdade a confiança da equipe. 

E olha que confiança é uma coisa difícil de conquistar nesse Museu, hein! 

Acho que um dos maiores desafios que encontrei desde que comecei a trabalhar aqui foi justamente uma certa desconfiança com quem é “de fora”.

Por isso, era como se eu tivesse que provar que estava ali pelo bem do Museu e que também iria zelar por esse patrimônio. Não foi fácil.

Precisei resolver um vazamento para olharem para mim de outra forma e falarem:

“Ela consegue, ela é confiável”. 

Foi um divisor de águas.

Antes de começar a trabalhar no Museu, eu era daquelas pessoas que acham que museus são lugares de coisas antigas, que pertencem exclusivamente ao passado. 

Talvez porque cresci em Brasília, um lugar onde a principal atração é a própria cidade. Eu tinha pouco conhecimento sobre a importância das instituições museológicas. O que eu sabia do Museu do Ipiranga é que era onde estava o quadro Independência ou morte.

Tanto que, quando vi que o Museu tinha aberto uma vaga na área de produção cultural, mandei meu currículo sem nem acreditar que teria chance.

Fui tão sincera que achei que nem conseguiria a vaga. No e-mail de apresentação, deixei bem claro que nunca tinha trabalhado com museus.

Sincericídioque chamam? 

É claro que tinha interesse na vaga. Tinha me mudado para São Paulo há menos de um ano em busca, justamente, de oportunidades de expandir a minha atuação na área de produção cultural, mas pela falta de experiência com museus, nunca achei que iria ser selecionada. Aí veio o retorno da equipe, dizendo que tinha adorado meu currículo.

Nem acreditei de tanta felicidade!

Em Brasília, já trabalhava como produtora cultural em eventos ligados às manifestações populares, como Bumba Meu Boi, Tambor de Crioula, capoeira e candomblé. E na entrevista para a vaga, percebi que a ideia era justamente consolidar uma área de ações culturais,  realizando atividades e eventos com propostas semelhantes aos projetos que eu já tinha realizado antes. 

Adorei! 

Comecei a trabalhar no Museu em maio de 2022, para atuar diretamente na reabertura, que seria no dia 7 de setembro. 

Nos meus primeiros meses, o que eu enxergava era um grande canteiro de obras. A parte da entrada eram buracos, caminhões e tratores, além de tapumes por todos os lados. Então foi um pouco difícil contemplar a monumentalidade do prédio, que a gente tanto admira hoje. 

Fui aos poucos entendendo a importância e a relevância do Museu. Descobri a conexão dele com o bairro, com as pessoas que passam por aqui. Mesmo com o prédio fechado, os moradores da vizinhança não deixavam de acompanhar tudo o que acontecia. Assim que a inauguração foi anunciada, percebi que elas queriam uma certa exclusividade de acesso, queriam ver em primeira mão. Havia uma relação quase de posse, como se esse pedaço histórico do bairro pertencesse a eles.

Os meses foram passando e eu lembro de olhar o relógio com a contagem regressiva, pensando: será que vai dar tempo? 

Pois deu!

 

Até hoje, pra mim, entrar no Museu do Ipiranga é uma experiência. Me acostumei a ficar na área técnica, e acabo indo pouco nas exposições. Então, toda vez que subo as escadas rolantes para entrar na área expositiva, tenho a sensação de deslumbramento. 

A primeira vez que vi o quadro Independência ou Morte, também, parecia que estava conhecendo uma celebridade. Foi como encontrar ao vivo alguém que a gente viu apenas por imagens e, de repente, perceber que é de verdade.

Mas, preciso dizer que são sensações ambíguas. No saguão de entrada do edifício histórico, estão aqueles bandeirantes gigantescos, glorificados. Tenho ascendência indígena – apesar de a origem mesmo ter se perdido na colonização – e todo mundo sabe o que eles representaram para os povos indígenas. Por outro lado, temos as telas do Van Emelen, que retratam pessoas negras nas décadas de 1930 e 1940 cheias de humanidade.

Você sai de um espaço onde se sente mal, em uma experiência quase claustrofóbica, e se depara com outro onde há pertencimento.

E acho que a minha realização no Museu está na possibilidade de propor esses contrapontos nas programações culturais. Por exemplo, no Museu em Festa, que é o maior evento do ano, em comemoração ao dia 7 de setembro, aproveitamos para propor provocações e diálogos trazendo grupos que, normalmente, não se sentem representados no Museu do Ipiranga. 

Em 2025, que foi a comemoração de 130 anos da instituição, conseguimos trazer a Funmilayo Afrobeat, que é uma orquestra formada apenas por mulheres negras e pessoas não-binárias. Foi incrível ver o grupo tocando em frente à fachada do Museu do Ipiranga. Querendo ou não, o Museu conta uma parte da história do Brasil que é dolorosa, e o que nós queremos é que ele possa ser também palco de celebração. É uma forma de dizer que valorizamos essas pessoas.

O tempo todo falamos sobre a inclusão de grupos minoritários e me orgulho quando saímos do discurso e transformamos a diversidade em prática.

Gosto de pensar que apesar dos desafios e dias difíceis – que fazem parte da rotina –, quando estiver bem velhinha, e olhar para trás, vou ficar satisfeita com a minha trajetória e com o que ajudei a construir. Estou tendo a oportunidade de colaborar na criação dessa identidade cultural do Museu do Ipiranga. 

Outra coisa: é sempre impressionante lembrar que foi bem ali do lado que D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil! É como se a gente estivesse vivenciando aqueles textos que lemos nos livros de História. 

Ah, e que privilégio que é trabalhar nesse prédio, com esse quintalzão e essa vista! Tem gente que passa o dia inteiro em escritórios, prédios fechados; eu, quando quero dar uma pausa, posso passear pelas exposições, ou ficar um tempinho no Mirante, ou me sentar para tomar um ar no Jardim Francês. 

Que sorte, né?!

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