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Museu do Ipiranga

Era a primeira vez que eu pisava no Museu depois de quase dez anos de fechamento. Quando entrei na sala onde eu costumava trabalhar, transformada em espaço expositivo depois das obras, chorei de emoção. Era como se eu pudesse vê-la exatamente como ela havia sido: o espaço do setor de documentação destinado a receber os pesquisadores. 

E assim fui transportada para aquele 2001, quando eu ainda era estagiária, havia acabado de entrar no Museu, e vi aquele homem entrando na sala.

Ele se apresentou como o tataraneto do Benedito Calixto e disse que gostaria de conversar sobre uma possível parceria, algo ligado a uma data comemorativa. 

Minha chefe me pediu que eu ficasse com ele enquanto terminava outra tarefa e eu logo mostrei as fotos de seu antepassado artista, com as quais, por coincidência, eu vinha trabalhando fazia dias. 

Ele se sentou e, quase imediatamente, começou a apontar quem era quem, o que tinha sido de cada um que aparecia nas fotografias. “Esse morreu, esse casou, esse…” – e assim ia, como se aquelas figuras ainda estivessem todas entre nós, como se fossem nossas contemporâneas.

Naqueles dias, eu havia passado horas debruçada sobre aquele acervo: conferia quais imagens já tinham reprodução em papel, separava, organizava, dava um encaminhamento. Um trabalho mecânico pelo qual eu já começava a me afeiçoar, mas que, naquela tarde, ganhou uma dimensão completamente diferente.

Foi como se, de repente, tudo fizesse sentido. 

Sou formada em filosofia, uma área voltada aos conceitos, à estruturação do pensamento, ao rigor da lógica. Mas, durante a graduação, não me via naquele caminho, não conseguia imaginar exatamente o que faria e nem onde me encaixaria.

E então cheguei ao Museu. E ali encontrei algo concreto. 

Percebi que trabalhar com documentação era, no fundo, dar forma às coisas: organizar, catalogar, pensar como as informações se estruturam, como se tornam acessíveis. Mas mais do que isso. 

Havia algo maior, algo que talvez eu tenha começado a perceber naquele encontro com o descendente do Benedito Calixto. Algo que eu passei a identificar com a ideia de que a memória é algo palpável, ao alcance dos meus dedos, a matéria física do meu trabalho.

Então eu soube. Era ali que eu queria estar. Por isso aquela sexta-feira à tarde, mais de dez anos atrás, foi tão difícil para mim. 

Estávamos no meio de uma reunião quando uma colega da área de comunicação entrou na sala, sem fôlego, e disse que o prédio iria fechar para o público.

Essa possibilidade já estava há algum tempo nos rondando. Mas, quando veio a confirmação, fiquei completamente desolada. Pensei que, se o edifício se fecharia aos visitantes, também se fecharia aos pesquisadores – e o atendimento aos consulentes sempre foi uma parte essencial do meu trabalho. Eu sabia o que a falta de acesso significaria para cada pesquisa.

Mas foi pior. No sábado, abri meu e-mail e encontrei a notícia: o Museu estaria fechado para o público, para os pesquisadores – e também para nós, funcionários, que, até então, trabalhávamos dentro do edifício monumento.

Eu tinha acabado de sair de uma função mais reservada, focada no inventário e na catalogação, para assumir a gestão de todo o acervo, e agora, de repente, estava na linha de frente das decisões de como lidar com tudo aquilo, com todas aquelas memórias.

Para mim, o mais desafiador era dar forma à mudança. Tentar entender para onde a documentação iria, com que recursos contaríamos. O inventário já estava em andamento, mas faltava um mapa mais preciso, algo que nos dissesse onde estava cada coisa e, a partir disso, que tipo de embalagem e de transporte seriam necessários.

Não tivemos tempo de planejar o fechamento. De repente, já estávamos do lado de fora do Museu, tentando decidir o que deveria (ou não) permanecer lá dentro.

Era a primeira vez que esvaziaríamos aquele prédio – e provavelmente a única. As discussões eram longas, exaustivas. Não sabíamos por onde começar: por tipologia, por área? E, no meio disso, surgiam questões que não tínhamos sequer imaginado.

Descobrimos, por exemplo, que o prédio talvez não suportasse um esvaziamento desigual e que não dava para retirar tudo de um lado e depois do outro, pois o peso não podia mudar de forma tão brusca.

E foi justamente o fechamento do Museu, e esse tipo de questão que um acervo desperta, que levou a documentação a se aprofundar ainda mais na necessidade de se fazer com que o acervo pudesse ser acessado remotamente.

Anos depois, no meio da pandemia, então, começamos a migrar o nosso banco de dados para o Tainacan, uma plataforma gratuita e de código aberto desenvolvida para a publicação de acervos digitais.

Enquanto muitos museus optam por revisar tudo e só disponibilizar ao público quando a catalogação está completamente “fechada”, o Ipiranga segue outra lógica: a de democratizar o acesso. Assim, sempre que possível, para não atrasar o compartilhamento dos dados, publicamos como está e depois vamos afinando. Isso significa, inevitavelmente, dar acesso a tudo, inclusive aos problemas.

Desde que migramos para o Tainacan, então, nossos esforços têm se concentrado justamente na revisão contínua da catalogação dos últimos trinta anos. Quando lidamos com esses dados, revisamos incongruências e buscamos padronizações,  inclusive na grafia de nomes. Em outros momentos, ao nomear um objeto, alguém sugere “bibelô” e, como trabalhamos com vocabulários controlados, pode ser que este termo não exista na “listagem”. Antes de incorporá-lo, contudo, abrimos um fórum de discussão para entender se o termo é adequado, se existem sinônimos mais precisos, em quais contextos ele se aplica, e assim por diante.

Em uma das nossas reuniões de revisão de metadados, uma colega questionou por que ainda tínhamos apenas os termos “homem” e “mulher” como descritores para imagem. A pergunta abriu, quase instantaneamente, uma discussão mais ampla sobre como essa divisão binária já não dá conta da complexidade do nosso tempo.

Parecem detalhes, mas não são. 

O acervo é também um lugar de descobertas, e a pesquisa pode ser, muitas vezes, o primeiro contato de alguém com um universo muito mais vasto do que se imagina.

Meu papel sempre esteve entre esses mundos: o que documenta, e pensa sobre a documentação, e o que conhece afetivamente cada item e as pesquisas que eles despertam.

Quantas memórias.

Me lembro do descendente do Benedito Calixto, mas me lembro também de uma senhorinha que visitava o Museu para consultar plantas arquitetônicas e trazia, como lanche, algumas folhas de algas.

Ela pedia para acessar por volta de quinze plantas por vez e passava a tarde inteira assim: observando o material com calma, fazendo pausas, saindo para comer suas algas.

Eu não entendia muito bem o critério dela. Ela escolhia por cores, e isso me irritava um pouco, porque as plantas eram enormes e exigiam um esforço físico considerável para serem separadas. Hoje vejo de outra forma. Entendo que ela apenas habitava o Museu à sua maneira — e isso, no fim, é algo precioso.

Não sei… A minha conexão com o Museu é tão intensa que, às vezes, tenho a impressão de que o acervo fala.

Aconteceu num fim de tarde em que precisei fazer uma conferência na reserva técnica. Já eram por volta de seis horas, lusco-fusco, aquele horário em que o raciocínio perde a firmeza, em que o pensamento começa a se espraiar.

Eu procurava um retrato quando, de repente, tive a sensação de ouvir uma voz: “Oi”.

Fiquei assustada. Fechei a porta da sala e saí quase correndo pelas escadas, sem coragem nem de esperar o elevador. 

Estamos lidando com documentos de um Museu centenário – um acervo feito por pessoas que já passaram por aqui, e que, de algum modo, ainda permanecem.

Talvez por isso eu me sinta tão pequena dentro dessa imensidão de objetos que continua existindo e que ainda será vista por muitas outras pessoas no futuro.

Mas também entendo que, se o acervo fala, é porque alguém o escuta e o traduz. E que cada descrição, cada nome identificado, cada dado organizado é o que permite que essas histórias do passado continuem respirando no futuro.

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