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Ipiranga Museum

Caí no Museu do Ipiranga de paraquedas. 

Quando prestei o concurso, em 2024, achei que era para trabalhar no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo. Já havia realizado uma disciplina no Museu, durante o mestrado, e visitado a exposição Resistência Já! Fortalecimento e união das culturas indígenas Kaingang, Guarani Nhandewa e Terena, que se revelou especialmente significativa por ser resultado de um processo de curadoria compartilhada entre esses grupos indígenas e os pesquisadores do Museu. Como a bibliografia da prova trazia temas relacionados a essa instituição, logo deduzi que a vaga seria para lá, embora houvesse a possibilidade de ser chamada para qualquer um dos museus administrados pela USP.

Fiquei em segundo lugar no concurso e, muito chateada, parei de verificar as atualizações do site. Aí um dia, abro meu e-mail, e me deparo com a seguinte mensagem:

Parabéns pela sua aprovação!

Lembro que estava em Ribeirão Preto, na casa da minha mãe, e levei o computador até ela para perguntar se o que estava vendo era real. Nós duas começamos a chorar. Telefonei para o meu pai, e ele desatou também. Depois, quando contei ao meu marido, ainda chorava tanto que ele achou que o meu cachorro tinha morrido. 

Fazia uns três meses que tinha saído o resultado e, a princípio, achei que apenas uma pessoa seria contemplada. A funcionária de Recursos Humanos me explicou que eu deveria me apresentar no Museu do Ipiranga e somente nesse momento entendi para onde havia sido selecionada. Até perguntei:

– Não é no Museu de Arqueologia?

Não, não era. Naquela altura, já estava definido que eu iria para o Ipiranga e, embora tenha sido inesperado, fiquei muito empolgada com a oportunidade de atuar na área educativa de um museu.

Quando me mudei para São Paulo, em 2012, ainda como uma estudante de Comunicação, trabalhar com algo que estivesse relacionado ao universo artístico parecia um sonho. Nessa época, tive meu primeiro contato com a arte contemporânea, em uma exposição da Lygia Clark no Itaú Cultural.

O que me chamou a atenção foi que eles fizeram reproduções das peças para que os visitantes pudessem experimentar diferentes sensações. A mostra tinha desde os Bichos, que são aquelas placas de metal com dobradiças, feitas para o público criar novas formas, até obras que envolviam um engajamento ainda maior do corpo do visitante. Lembro-me da obra Túnel, que, como o nome sugere, consiste em um percurso feito de tecido elástico, pelo qual a pessoa atravessa até alcançar a saída. No início, a experiência pode provocar uma sensação de angústia, de sufocamento; em seguida, surge o alívio. A obra pode ser interpretada como uma tentativa de fazer o visitante reviver, de forma sensorial, a experiência do nascimento.

Experiências como essa alimentaram o meu desejo de estudar História da Arte,  o que consegui realizar a partir do mestrado. Lygia queria que a sua arte fosse vivenciada pelo corpo como um todo. Visão, audição, tato, olfato e paladar apareciam em grupo, de forma multissensorial.  

Abordei esse tema no meu Trabalho de Conclusão de Curso, na minha segunda graduação, dessa vez no curso “Arte: História Crítica e Curadoria”, da PUC. Desde a Grécia Antiga, a visão é considerada o “mais nobre dos sentidos”, mas vários antropólogos já mostraram que essa valorização é cultural. Por isso queria saber como os museus podiam usar diversos recursos para ampliar as experiências sensoriais dos visitantes, e estava justamente fazendo essa pesquisa quando fui ao Ipiranga pela primeira vez. 

Não cheguei a conhecer o Museu antes de sua reabertura, em 2022. Ele foi fechado cerca de um ano após a minha chegada a São Paulo, e não consegui visitá-lo a tempo. Mas, na minha primeira visita, fiquei totalmente fascinada em ver como a acessibilidade tinha importância dentro das exposições. Em outras instituições, os recursos de acessibilidade, quando existem, costumam ficar em espaços pouco visíveis, separados das exposições. No Museu do Ipiranga, ao contrário, eles ocupavam um lugar central no percurso expositivo. Além de recursos fundamentais, como textos em braille, audiodescrição e intérpretes de Libras, chamou minha atenção a quantidade de obras e objetos acessíveis ao toque, com formas e materiais diversos, ampliando as possibilidades de exploração dos conteúdos das exposições.

Nessa época, estava cursando o meu doutorado, que era sobre a transformação de objetos populares em obras de arte. Mas ainda me sentia insegura sobre o que estava fazendo e passei a me questionar aonde aquilo ia me levar. O interesse pelo tema da acessibilidade surge então como uma válvula de escape, como um assunto que eu queria pesquisar, mas sem o peso da minha tese. 

Sempre tive um carinho especial pela educação museal e, por muito tempo, busquei me manter nesse campo. Já havia vivenciado experiências muito significativas com educação popular, e a decisão de estudar arte se deve, em grande parte, à minha atuação como educadora na 31ª Bienal.

Nessa experiência profissional, entre a seleção, a formação e o tempo da mostra, o processo durou quase um ano. Eu me juntei a um grupo interdisciplinar, com supervisores que vinham do teatro e faziam muitas proposições de engajamento corporal. Foi um momento decisivo para que eu pudesse me soltar mais. 

Era uma Bienal bastante experimental e ali o mundo se abriu. A gente sempre fala da relação do público com a arte e o público aparece quase como um conceito abstrato. Mas, naquele contexto, percebi as particularidades de cada grupo com que tinha contato.

Entendi como era trabalhar com as crianças e até com os adolescentes que chegavam com aquele ar indiferente. Em pouco tempo, me dei conta que os estudantes do ensino médio adoravam parar em frente ao vídeo do artista turco Halil Altindere, no qual um grupo de rap percorria a comunidade onde nasceu enquanto entoava letras sobre a sua realidade. Por outro lado, os mais novos se divertiam na instalação do Grupo Contrafilé, que propôs uma série de encontros em torno de um baobá – como a árvore vive em torno de 6 mil anos, a proposta do coletivo era tê-la como a guardiã das nossas histórias. 

Acho que o que eles vivenciaram ali foram momentos que irão levar para vida toda, assim como também tenho até hoje a memória das vezes em que visitei a Bienal quando era mais nova. A arte tem esse poder de marcar a nossa vida e aflorar as nossas sensibilidades e é exatamente esse impacto que busco trazer nas atividades do Educativo.

Recentemente, o Museu recebeu um grande grupo de visitantes participantes do terceiro Encontro Nacional da Rede de Leitura Inclusiva, organizado pela Fundação Dorina Nowill. No grupo, havia pessoas com deficiência visual. Foi uma oportunidade maravilhosa para centrar a visita na exploração das obras táteis presentes no Museu.

Iniciamos pela maquete do edifício, localizada no Piso Jardim. Foi possível perceber seus detalhes por meio do toque. A partir dessa experiência, conversamos sobre sua construção, realizada entre 1885 e 1890, e sobre sua concepção como monumento em comemoração à Proclamação da Independência, ocorrida em 1822.

Também abordamos a inauguração do Museu Paulista no local, em 1895, e a reforma realizada entre 2013 e 2022.

Expliquei que a maquete representa, em escala reduzida, um edifício de grandes proporções, com 123 metros de largura, 31 metros de altura e 18 metros de profundidade. Nela, identificamos tanto a entrada original, pelas escadarias, quanto o acesso atual ao Museu, voltado para o espaço de acolhimento onde estávamos.

A ideia era transmitir a magnitude do edifício, elemento central na experiência dos visitantes. Para ampliar a percepção espacial e sensorial, adotei uma estratégia sugerida pelo meu colega Vini, também educador no Museu: ao chegarmos ao saguão, o grupo foi convidado a abraçar as robustas colunas do edifício. A proposta contribuiu para intensificar a experiência corporal e sensorial no espaço.

O contato com as pesquisas científicas que fundamentam as exposições do Museu me descortinou um novo olhar para obras de arte que já eram velhas conhecidas por meio de materiais didáticos. Essa mudança de perspectiva me marcou desde a primeira vez que estive na exposição “Passados Imaginados”, ainda como visitante do Museu. Ao compreender as obras do acervo como documentos históricos, passei a observar com mais atenção o contexto de sua produção e as intenções dos diferentes agentes envolvidos. Além dos objetivos do artista, entram em cena, por exemplo, aqueles que encomendaram as obras, ampliando suas possibilidades de interpretação. Esse novo olhar também se relaciona ao fato de que, até então, eu analisava obras inseridas em contextos históricos e artísticos distintos daqueles presentes no acervo do Museu, o que torna esse deslocamento ainda mais significativo.

Como as narrativas históricas são construídas?

Quem aparece como protagonista?

Que grupos foram historicamente apagados?

Pensar sobre essas questões é uma das iniciativas atuais do Museu do Ipiranga. A ideia dos bandeirantes como figuras heróicas, por exemplo, foi uma imagem que a instituição ajudou a criar e divulgar, e que agora problematizamos com os visitantes, trazendo para discussão esse passado que também foi violento e escravizador. 

Quando visitei o Ipiranga depois da reabertura, jamais poderia imaginar que seria nesse prédio que realizaria o meu sonho de trabalhar com arte. Eu era aquela pessoa que frequentava apenas espaços de arte contemporânea, mesmo quando viajava, e a minha relação com museus de história parecia distante.

Desde que comecei, em 2024, tenho buscado diariamente aprender mais e mais. O meu desejo é articular esses novos conhecimentos com a bagagem que já trago comigo e que diz respeito às práticas artísticas do nosso tempo. 

Na mostra “Debret em Questão – Olhares Contemporâneos”, por exemplo, nós, da equipe educativa, desenvolvemos, em diálogo com a curadoria, uma proposta de exploração sensorial que contemplou várias obras. Ao longo do percurso expositivo, mesas com recursos táteis ampliam as possibilidades de fruição da exposição.

Por exemplo, na sala com fotografias da Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, que teve o Debret como tema do desfile em 1959, nossa ideia foi transformar o samba-enredo em vibração. O desafio foi criar uma sincronia entre a letra e o som do samba-enredo, sua versão em Libras e a possibilidade de compreender essas informações por meio do toque em uma superfície.

Se caí no Museu do Ipiranga quase de paraquedas, sem saber exatamente onde estava aterrissando, hoje entendo que não foi por acaso. É nesse espaço, entre arte, história e educação, que quero construir o meu lugar. Um sonho que estou realizando todos os dias.

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