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Ipiranga Museum

Nos meus primeiros dias no Museu do Ipiranga, as pessoas vinham se apresentar e eu, curiosa, logo perguntava em qual setor elas trabalhavam e há quanto tempo estavam na instituição. As respostas eram dez, quinze, vinte anos.

Parecia absurdo. Aos 19, não entendia como alguém podia permanecer tanto tempo em um mesmo lugar.

Hoje estou há mais de trinta e cinco anos exercendo a mesma função. 

Fiz faculdade sendo funcionária do Museu.

Tive três filhos sendo funcionária do Museu.

Passei por dois casamentos sendo funcionária do Museu. 

Sou ipiranguista, nasci e cresci nesse bairro. Morava em uma rua coladinha ao Museu do Ipiranga e era no Parque da Independência que vinha passar o dia com meu irmão. Entre os jardins de estilo francês, com seus canteiros geométricos, a gente brincava de esconde-esconde. 

Não tinha a menor ideia de que o prédio-monumento, construído no século 19 em comemoração à Proclamação da Independência, abrigava uma coleção. Olhava para aquela construção de estilo neoclássico e via apenas um palacete. 

Quando entrei nele pela primeira vez, e pude contemplar a carruagem e a cadeira de arruar que estavam expostas, continuei achando que o espaço tinha sido a morada de um imperador.  Na minha ingenuidade de menina, era a casa onde eu sonhava um dia viver com os meus pais e familiares. 

O curioso é que as pessoas que trabalhavam comigo se tornaram essa grande família. 

Soube do concurso por causa da Dona Mercedes, que era minha vizinha e responsável pela loja do Museu; a filha dela era servidora da biblioteca. De tanta proximidade, tinha as duas como tia e prima. E, no dia a dia, foi como se eu criasse relações de parentesco com todos que me rodeavam ali. 

Na época, a maioria dos setores dividia o mesmo ambiente e me lembro muito desse sentimento de irmandade. No horário de almoço, ninguém voltava para casa, e a copa se tornava praticamente um salão de jogos: baralho, dama, xadrez e até pingue-pongue. E não pensem que os móveis eram comprados ou fornecidos pela instituição. Era a equipe de marcenaria que construía tudo, das mesas de apoio para os tabuleiros às de pingue-pongue.

Por muitos anos, fizemos festas juninas e os funcionários se vestiam a caráter. Em uma delas, a escadaria do Museu chegou a ser palco de casamento e o diretor, que na época era o José Sebastião Witter, apareceu com uma espingarda de brinquedo para fazer as vezes de pai ciumento. Organizávamos gincanas em torno dos estados brasileiros, com tarefas que envolviam performances e danças típicas como o maracatu. Alguém estipulava as regras, a gente se dividia em equipes e os docentes se transformavam em jurados. Tinha fantasia, premiação, e tudo o que se pode imaginar. 

Assim que comecei, em 1990, o setor do qual eu fazia parte era o de publicações e a gente lançava, todos os anos, o Anais do Museu Paulista e a Revista do Museu Paulista. Lembro que saíam artigos importantes em torno do acervo e das práticas museológicas, com estudos sobre as fotografias do Militão de Azevedo e sobre as formas como as instituições podem definir e reforçar identidades. Minha função, porém, era mais prática: a de enviar, via correio, uma infinidade de exemplares que eram distribuídos para o mundo inteiro.

Com o tempo, obviamente, essa demanda se tornou obsoleta. As edições passaram a ser digitais e, nesse período, a professora Miyoko Makino resolveu reorganizar as atribuições de cada um de nós. O setor ganhou o nome de Divisão de Apoio à Pesquisa, Ensino, Cultura e Extensão, e ele abrangia, basicamente, tudo.

Era auxílio a docentes, eram cursos de difusão, cursos de atualização, estágios, eventos… E o meu envolvimento foi tanto que nunca saí dessa área. 

Quando olho para trás e vejo todos os anos, nem acredito. 

No Museu do Ipiranga, nós temos funcionários muito antigos, com décadas de casa, mas acho que sou a única que permaneceu, durante mais de três décadas, na mesma atividade. O que gosto é estar com as pessoas. Sou simpática, converso muito e nunca fico parada. 

A família do meu pai é de origem italiana, minha avó veio de Nápoles. Era muito festeira e esse traço da sua personalidade passou tanto para o filho, como para a neta. Minha casa vivia cheia, com música e dança, e talvez por isso o meu maior prazer dentro do Museu do Ipiranga seja ver os eventos que faço lotados. 

Desde sempre, o meu trabalho esteve próximo de estudantes, os da iniciação científica até os de pós-doutoramento, e estou em contato direto com os docentes, acompanhando o desenvolvimento das pesquisas e pensando em formas de levar esse conhecimento à sociedade. Assim que o historiador Frederico de Oliveira Toscano me contou que estava terminando o pós-doutorado sobre a história das latas na alimentação do Brasil, por exemplo, não pensei duas vezes antes de sugerir que ele ministrasse uma palestra para o programa “Encontro com a Pesquisa”, que começamos em 2025. 

Acho que entrei no lugar certo, fiz tudo o que sempre quis e esse é o motivo de nunca ter cogitado sair. 

No início, a estrutura deixava a desejar. A gente brigava por espaço, os equipamentos estavam em falta, a equipe era pequena e muitas vezes sobrava mesa e outros equipamentos para carregar, mas eu não me importava de acumular funções ou ficar trabalhando até altas horas. Se me pediam para acompanhar gravações durante a madrugada, por exemplo, não ligava caso as filmagens fossem até três ou quatro horas da manhã e, no outro dia, ainda vinha trabalhar cedo. Não sei explicar, não ganhava nada a mais por isso e amava. 

Tenho o Museu como parte da minha vida.

E foi esse sentimento que me ajudou a não parar no momento em que ele fechou para reforma, o que aconteceu em 2013. Na época, fomos trabalhar em uma casa na avenida Nazaré e quando vimos a sala que hoje abriga a Fundação de Apoio ao Museu Paulista, a FAAMP, já enxergamos a possibilidade de transformá-la em auditório. Colocamos cadeiras, telão, projetor e fizemos um monte de atividades.

Dali, nós conseguimos idealizar a série “Encontro com Acervos”, com a participação de pesquisadores que desenvolviam estudos na própria instituição. Em um desses dias, o historiador José Rogério Beier explicou ao público o que era um astrolábio, instrumento do século 19 usado para fins tão diversos como auxiliar na navegação ou calcular a altura das estrelas e dos prédios. 

Os convidados falavam por prazer, para um grupo pequeno de participantes, porque na sala não cabiam mais de quarenta pessoas. O que me consolou, no entanto, foi continuar vendo as palestras sendo aplaudidas e todos comentando depois sobre o que aprenderam. A minha principal satisfação é passar para os outros o que a gente sabe fazer tão bem dentro da instituição e ouvir, ao fim de cada evento, a melhor de todas as perguntas: 

“Qual é a data do próximo?”.

Foi nessa casa na Nazaré, também, que nós viabilizamos vários cursos virtuais que abordavam as novas exposições enquanto elas ainda estavam sendo planejadas.

 

 

 

 

Enquanto os professores discutiam temas como a história do país e as representações visuais do passado brasileiro, eles apresentavam o que estaria à mostra no Salão Nobre e as questões que envolviam a exposição “Passados Imaginados”, para citar apenas dois casos. 

Mas, ainda que eu tenha assistido às aulas, fiquei completamente perdida com a dimensão que o Museu do Ipiranga ganhou após o projeto de ampliação. Antes, conhecia cada pedacinho daquele prédio e acho que saberia dizer até mesmo se alguma parede apresentava marcas. Por isso jamais vou esquecer do dia em que fui acompanhar uma gravação e não consegui localizar a sala onde a equipe gostaria de ir. 

Trinta e cinco anos de Museu e não saber onde está uma sala? 

Que difícil. 

No fim, me ensinaram e cumpri minha tarefa, mas não sem frustração. O que gostava mesmo era do Museu antigo, que foi onde vivi e cresci. Mas dele só restaram a escadaria, o hall principal e o Salão Nobre, os poucos lugares que se mantiveram iguais e nos quais ainda me situo. O resto é novo e ainda estou me acostumando à sua imensidão.

O mirante, que pode ser acessado por elevadores, inclusive, antigamente tinha sua entrada restrita e era eu quem muitas vezes levava os visitantes para conhecê-lo por meio de uma escada de madeira, com poucos degraus, em uma passagem na qual os mais altos precisavam se abaixar para concluir o percurso. Era tudo improvisado e agora, claro, toda vez que visito o espaço, e contemplo aquela vista de 360o, não consigo não repassar os meus anos à frente do Museu.

As pessoas que trabalham aqui hoje, e que entraram há pouco tempo, não tem ideia do que os mais antigos viveram. O que nós passamos juntos, ninguém nunca mais vai passar. 

Apesar de eu ter mais de 50 anos, com trinta e cinco de Museu nunca deixei de ser a Stellinha. E é por isso que me emociono quando penso em tudo o que construímos para chegar onde estamos agora, e me divirto lembrando de cada partida que tivemos, das duplas de baralho às disputas no pingue-pongue. E, olha, joguei muito!

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