A ideia que muitos têm é que os seguranças não leem, não sabem falar e são todos ignorantes.
Infelizmente, a imagem da nossa área é essa.
Ninguém percebe que é preciso ter muito conhecimento, muita inteligência emocional para lidar com as situações que lidamos todos os dias.
Quando fui contratado para atuar em hospitais, a maior dificuldade era administrar os sentimentos à flor da pele da família e dos amigos dos doentes. Tinha que controlar, por exemplo, o excesso de visitas. Às vezes com três, quatro, cinco pessoas querendo entrar no quarto ao mesmo tempo.
Eu procurava ter empatia. O segredo está na maneira como você se comunica.
Sei que, em alguns lugares, o que se espera é uma atuação similar à da polícia. Mas aqui no Ipiranga não, pois sentimos que estamos a serviço do público. Acho que foi isso que fez com que eu me identificasse tanto nesse trabalho.
O Museu exige outra linguagem, outro tipo de comunicação.
É engraçado pensar que fiquei tanto tempo observando o prédio por fora e fantasiando como ele seria por dentro sem nunca sonhar que um dia estaria nele.
A primeira vez que passei em frente ao Ipiranga, vi aquele prédio enorme. Nem sonhava em trabalhar aqui. Fiquei só imaginando:
Como deve ser dentro?
Será que D. Pedro morou aqui?
Disseram que ele está enterrado por aqui?
E o corpo da Maria Quitéria, minha conterrânea? Será que também está em algum lugar?
Não era comum vir para esses lados – moro em Guaianases, na Zona Leste. O trajeto não dura menos que 1h30 em um dia bom. Mas, quando minha irmã ficou internada em um hospital próximo ao Ipiranga, passava frequentemente com as minhas sobrinhas diante do Museu.
A gente ficava do lado de fora, fazendo poses no jardim e admirando as expressões, os movimentos das figuras retratadas no Monumento à Independência.
Mesmo com tudo o que estávamos vivendo, era impossível não se encantar com a beleza do prédio.
Nunca tinha entrado em um museu. Vim da Bahia a São Paulo com 18 anos.
Assim que cheguei, encontrei meus irmãos mais velhos já empregados e consegui o primeiro bico como auxiliar de gesso. O trabalho não era ruim, mas acabei influenciado por uma prima a seguir para a área de segurança.
“Você tem altura, tem porte”, ela me disse, e eu fui.
Só não imaginava os desafios.
Na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, por exemplo, minha principal função era combater o trabalho dos ambulantes, os marreteiros. Me sentia em um jogo de gato e rato. Nós tentando afastá-los, e eles sempre buscando uma maneira de voltar.
Quando os via montando e desmontando tudo rapidamente, muitas vezes acuados pela polícia, também ficava pensando que estavam ali, como eu, tentando ganhar a vida.
Sei que tenho altura e porte, mas nunca fui uma pessoa do confronto. Todo mundo diz que estou sempre com um sorriso largo no rosto e aprendi com os meus pais a resolver tudo de forma pacífica. Então, ficava pensando:
Será que preciso mesmo usar a força?
Os cursos para atuar na área de segurança são regulamentados e fiscalizados pela Polícia Federal. Acho que antigamente as escolas seguiam um regime próximo ao militar.
Tínhamos que estar prontos para aplicar a força de forma gradual. Ou seja, se as advertências não funcionassem, poderíamos partir para imobilizações leves, bastões e até mesmo armas de fogo. Isso, claro, se tivéssemos registro e autorização de porte.
Mesmo assim, em todos os espaços que atuei, sempre busquei o diálogo. Me colocava no lugar de cada um e então orientava da melhor forma.
Por isso gosto tanto de trabalhar aqui.
Quando entrei no prédio do Ipiranga pela primeira vez, não tinha noção do tamanho do espaço e nem mesmo do que era um museu.
Me surpreendi com a arquitetura e não parava de pensar em como conseguiram, naquela época, construir pilares tão altos. Também não acreditei quando soube que o local não guardava só o quadro Independence or Death e sim um acervo com mais de 400 mil itens.
Fiquei totalmente maravilhado e finalmente me encontrei.
Tudo aconteceu porque minha mulher engravidou e fui pedir ao supervisor para sair da escala noturna onde eu trabalhava. Não tinha ideia que iria para uma área tão diferente, mas ele me apresentou a possibilidade de escolher entre três espaços: o Museu de Arte Contemporânea, o Centro Maria Antonia e o Museu do Ipiranga.
Confesso que nunca tinha ouvido falar sobre os dois primeiros, mas, quando ouvi “Ipiranga”, lembrei das viagens de Guaianases até lá e respondi que era ali que eu gostaria de estar.
Diferente dos outros lugares em que trabalhei, onde as pessoas estavam apenas de passagem e não pretendiam demorar, no Museu os visitantes vêm à procura de histórias. Eu adoro passar informações e conversar com eles.
Sei que, como segurança, não posso me empolgar achando que vou dar aula, mas preciso ter um conhecimento mínimo para orientar o público. E não tem quem não chegue perguntando:
“Onde estão as carruagens?”
“Por que não tem mais vestimentas?”
Explico que o acervo é grande e que não conseguimos exibir todos os objetos. Também conto que eles vão entender mais sobre o Brasil e o lugar que ocupam na construção do nosso país.
Daí me questionam:
“Quanto tempo levo para ver tudo?”
Digo que depende do ponto de vista e do que cada um se interessa mais: a arquitetura, o jardim francês, os objetos em exposição. E também devolvo outra pergunta:
“De que maneira você vai olhar para o quadro do D. Pedro?”
Acho que assim consigo incentivar a imaginação e fazer com que o visitante entenda o que significa frequentar um museu.
Não me esqueço de quando entrei no Salão Nobre pela primeira vez e olhei para a tela do Pedro Américo.
Vi aqueles homens, bem vestidos, com as espadas erguidas, e alguns cavalos empinados. A imagem que ficou para mim foi de muita força e coragem. Não eram apenas soldados montados a cavalo, mas uma cena que dizia muito sobre tudo aquilo que podemos ter.
Foi diante desse quadro que entendi que a independência está na nossa cabeça e que podemos alcançá-la a partir do momento em que pensamos que podemos vencer.
No dia a dia do museu, sinto que aprendo muito no contato com os educadores. A cada nova exposição, eles fazem uma visita com os seguranças.


É pelo olhar deles que consigo enxergar além do que está nas pinturas e nas fotografias. Na mostra “Debret em Questão”, por exemplo, percebi como muitos artistas prezam mais o sofrimento do que a alegria. Eu prefiro ver o copo meio cheio em vez de meio vazio. O Debret escolheu mostrar os escravizados carregando os senhores e sendo açoitados. São situações da época, abusivas, mas outros preferem não colocar mais os negros dessa forma. Como a Gê Viana, que os retrata em clima de festa.
É um embate que dura mais de 500 anos, mas, dentro dele, a gente pode encontrar felicidade.
E é o que sinto quando estou no meu posto.
Às vezes acontece de, entre uma informação e outra, eu lembrar do rosto do meu pai.
É curioso.
Ele morreu aos 91 anos. Quando nasci, tinha 83. Sua certidão é de 1898, poucos anos depois da inauguração do Museu.
Por isso é que eu lembro dele. O mundo em que o Ipiranga foi construído era o mundo dele.
A partir daí, então, minha cabeça já vai para o sítio em Itabuna, onde nasci e cresci e de onde saí há 26 anos – o caçula de seis irmãos e o último deles a migrar para São Paulo.
Lá, minha mãe passava as nossas camisas com o mesmo ferro que está nas vitrines da mostra “Casas e Coisas”. Os pratos e as canecas de porcelanas também eram parecidos com os que a gente usava, e as camas de mola em que dormíamos eram iguais às que encontrei no acervo do Ipiranga.
Na Bahia, as casas são maiores, têm pé-direito alto e quintal. Elas trazem algo da liberdade que encontrei no Museu, esse meu jeito de ver o mundo para além do sofrimento e da tristeza.
Então, todos os dias, quando venho trabalhar, e interajo com pessoas do mundo inteiro – China, Japão, Canadá – que vêm conhecer mais sobre a história do Brasil, sinto que elas estão conhecendo um pouco da minha história também.
É um reencontro com o menino que fui e que, por muito tempo, acreditou que a beleza da vida estava na simplicidade de jogar bola e tomar banho no rio Cachoeira.


