Para mim, o Museu do Ipiranga tem cheiro de mel.
É que desde muito novo, eu acompanhava o dia a dia do meu tio, Lúcio Pegoraro, que, durante mais de 30 anos, foi o único restaurador da instituição. Lembro dele debruçado dias e dias sobre uma única tela, trabalhando de forma meticulosa, aplicando cera de abelha para realizar o reentelamento – gesto delicado de aplicar um novo tecido no verso da pintura original.
Pelas mãos dele, passaram pinturas de artistas como Benedito Calixto, Oscar Pereira da Silva e, claro, a obra-prima do Pedro Américo. Ele ficava em uma sala no interior do edifício e eu, criança, observava o seu ofício com deslumbramento; o aroma de mel se espalhando pelos corredores.
Já faz 35 anos que meu tio não trabalha mais no prédio, mas, mesmo assim, o meu olfato ainda reconhece o aroma.
Como se o tempo tivesse parado.
Talvez tenha sido esse cheiro, persistente, que me trouxe ao Museu, onde comecei a trabalhar por influência do Lúcio e, graças a ele, me tornei o decano da casa, com quase 50 anos de dedicação.
Antes, trabalhava no faturamento de uma empresa de automóveis. Comecei aos 15 e, aos 18, estava totalmente esgotado. Me matava de trabalhar, recebia pouquinho, quase nada, e passei a sonhar com um ambiente mais tranquilo.
Sabia que era jovem e que, numa multinacional, tinha o futuro todo pela frente. Por outro lado, a ideia de trabalhar no Museu era também a de conviver não só com o meu tio, como com a minha tia, que era secretária da instituição e como uma segunda mãe para mim.
E havia ainda o contato diário com o acervo e com o próprio edifício, com seus corredores largos, escadarias de pedra e salas altas, que sempre me chamaram a atenção.
Foi assim que acabei seguindo o conselho da família e me inscrevi no concurso. Naquele tempo, a concorrência ainda não era tão intensa como hoje, e consegui ser aprovado.
Lembro que o ambiente daquela época era muito mais calmo. O estresse e as brigas, por incrível que pareça, se concentravam ao redor do fax – um território disputado quase a tapa.
Era um período pré-internet e eu fazia tudo sozinho. Sentava com os curadores para entender as exposições, produzia e divulgava os releases, acompanhava as entrevistas com os jornalistas, as filmagens para a televisão, e depois ainda organizava o clipping com todas as notícias que tinham saído.
Me virava nos trinta e dava certo. A não ser, é claro, quando eu precisava de autorização para usar a única linha de fax do Museu.
Imagine. Seria o equivalente a, hoje, um funcionário da comunicação ter de pedir permissão para acessar a internet. E era isso mesmo o que a assistente da direção queria que eu fizesse: só teria acesso ao aparelho se o próprio diretor permitisse.
“Pelo amor de Deus, libera o fax!”. Era uma frase comum no meu cotidiano.
É uma realidade que nem se compara com a que temos agora, com vários funcionários se dividindo para executar as tarefas e atender às demandas dos jornalistas. E, apesar disso, consegui muita coisa.
Quando organizamos o livro Cara de São Paulo, em 2013, fizemos uma retrospectiva das principais notícias ao longo de 50 anos, considerando toda a história do Museu desde a sua incorporação pela Universidade de São Paulo. Não foi fácil chegar a essa seleção, porque tínhamos mais de 1.800 reportagens, muitas delas de página inteira e até capas de jornal.
Foi quase uma coroação do meu trabalho.
Nesse contexto, jamais esquecerei o período em que o Museu do Ipiranga fechou por conta de infiltrações e riscos de desabamento de forros. As intervenções eram urgentes, e a gestão, como era de se esperar, enfrentava dificuldades para conseguir os recursos necessários.
Foi quando tive a ideia de chamar o jornal O Estado de S. Paulo, pois tinha certeza de que uma reportagem de grande alcance chamaria a atenção dos patrocinadores e da própria Universidade. Lembro que, no início, a Sheila Ornstein, que era a nossa diretora, ficou receosa, pediu para pensar, mas não deu outra.
Assim que fizemos a matéria, tive a sensação de ter lançado uma garrafa ao mar – e de vê-la, enfim, ser encontrada. Em pouco tempo, a USP se prontificou a nos atender e formou um grupo de trabalho para enfrentar a situação do Museu.
Só de lembrar a felicidade que foi, ainda me emociono, pois não eram raras as críticas de que eu não sabia o que estava fazendo e que meu trabalho era “caseirinho”. Só que era justamente esse caráter caseiro – mas bem feito, com cuidado e amor – que permitia que as coisas avançassem e se resolvessem.
Minha formação é em Letras, não em jornalismo, mas acho que realizei um trabalho à altura.
O mesmo sinto em relação ao meu tio, que deixou uma contribuição brilhante para a instituição e, ainda assim, por vezes é questionado.
Na época dele, a cera de abelha era comum para reforçar telas frágeis, fixar camadas de tinta e reentelar obras inteiras. Com o tempo, porém, a técnica caiu em desuso, sobretudo pela sensibilidade do material ao calor e pela dificuldade de removê-lo sem causar danos ao original.
Hoje, claro, a tecnologia avançou muito, e existem resinas sintéticas que são mais estáveis e mais fáceis de remover quando necessário. Mas isso não diminui a dedicação do meu tio, que deu a vida por essas obras. As telas com as quais ele trabalhou, inclusive, permanecem.
Só com Independência ou Morte, por exemplo, ele passou mais de seis meses. E sempre que olho para essa tela, majestosa, penso em como a “temida” cera de abelha a preservou até hoje. E graças ao empenho do meu tio.
Nós dois vivemos outra fase do Museu. Estou nele desde 1979, e cheguei em uma época que a instituição ainda era enciclopédica, com peças de arqueologia e etnologia.
Quando entrei, tive a oportunidade de acompanhar de perto o trabalho da Luciana Pallestrini, que foi uma das maiores expoentes da arqueologia, ao lado da Niède Guidon. Enquanto a Niède se dedicou às pinturas rupestres no Piauí, a Luciana criou o Projeto Paranapanema e realizou inúmeras pesquisas no estado de São Paulo, onde foram identificados diversos sítios arqueológicos.
Novinho que eu era, assumi a função de secretário, atendendo telefonemas e auxiliando na catalogação das peças. Pouco a pouco, porém, fui me tornando uma espécie de aprendiz e passei a acompanhar a equipe em algumas expedições. Estive no Lago do Ypacaraí, em Assunção, no Paraguai, e também no interior de São Paulo, onde acompanhei as primeiras escavações à coleta de objetos. Era um trabalho braçal, mas compensador, sobretudo quando surgiam as primeiras evidências arqueológicas: fragmentos de cerâmica, crânios e até esqueletos humanos.
Com a Luciana, conheci muitos mundos. E digo isso não apenas pelas viagens que pude realizar, mas também pelos pesquisadores que ela me indicou, já que, além das minhas atribuições no Museu, eu fazia bicos como datilógrafo.
E não se tratava de qualquer material: eram dissertações de mestrado e teses de doutorado.
Assim, aprendia continuamente. Foi como descobri mais sobre as pinturas e gravuras rupestres, os objetos líticos e os sambaquis, que são sítios arqueológicos pré-coloniais, formados pelo acúmulo de conchas e restos de peixes. Cheguei a datilografar até mesmo uma tese em tupi-guarani.
Se hoje, com os computadores, é possível corrigir erros e inserir novos dados com facilidade, naquele tempo, um único erro podia comprometer tudo. Era preciso recomeçar do zero, teclando cada palavra de uma página inteira outra vez.
Me fascinava pensar sobre a cultura do homem pré-histórico e, por um momento, cogitei cursar Antropologia, mas depois, quando esse acervo foi transferido para o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e o Museu do Ipiranga se voltou para a História da Cultura Material, percebi que a minha decisão de cursar Letras estava certa. Foi como consegui contribuir com a assessoria.
Isso aconteceu naturalmente, porque era uma área que eu já gostava. Sempre fui muito tímido, mas, quando precisava conversar com algum jornalista, essa timidez simplesmente desaparecia e talvez essa postura tenha ajudado a consolidar a relação do Museu com a imprensa.
Assim, quando o prédio fechou e a Fundação de Apoio ao Museu Paulista foi criada, assumindo a assessoria de imprensa, o vínculo que a Instituição tinha com todos os veículos e jornalistas já era sólido.
Foi então que, mais uma vez, acabei assumindo sozinho uma tarefa que ninguém queria.
Os mais novos dizem que é um trabalho chato, mas sei que se trata de algo essencial. Cuido dos convênios, da área de empréstimos de obras e do gerenciamento de imagens. É uma papelada extensa, feita de relatórios, seguros, autorizações. Se falta um único documento, nada se concretiza.
Agora, entre 2026 e 2027, teremos ainda que renovar todas as licenças de imagens utilizadas nas exposições, já que a autorização de uso é válida por cinco anos. Não é pouca coisa: são mais de 600 imagens, de cerca de 140 instituições, e que estão distribuídas entre vídeos, painéis e materiais de divulgação.
Por isso, a maioria das pessoas não gosta dessa função, mas eu, ao contrário, adoro.
Às vezes, é claro, bate aquele cansaço, o que é natural. Também enfrentei um tumor recentemente e precisei me cuidar.
Hoje estou bem, forte, e gosto de dizer que sou um velhinho com pique de jovem.
O tempo passa depressa, mas sigo com o mesmo fôlego de antes.
Tenho 67 anos e posso permanecer no Museu até os 75. Não sei exatamente até quando ficarei, mas tenho ainda alguns anos pela frente.
O que sei é que uma parte de mim permanecerá ali mesmo depois da minha aposentadoria.
São as histórias que ajudei a colocar nos jornais, as exposições que repercutiram pelo mundo e o cheiro da cera de abelha que, até hoje, parece impregnado nas paredes.
Há coisas que o tempo não leva – e que ninguém nos tira.


