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Museu do Ipiranga

Era agosto de 2013, a gente já estava se programando para as comemorações do dia 7 de setembro e a situação era a seguinte: escadaria central e duas salas interditadas, estuque caindo, risco de desprendimento de teto e chuva dentro do prédio.

Não havia nada de estrutural, mas infiltração d’água com rede elétrica antiga? É receita para curto circuito e fogo. Exatamente o que aconteceu com o Museu Nacional, em 2018. 

Eu era, nessa época, vice-diretora da professora Sheila Ornstein, arquiteta da FAU que havia assumido a direção do Museu em 2012. Diante desse cenário, a Sheila me chamou para contar que tinha decidido fechar as portas para a visitação do público. A minha primeira reação foi pensar nos funcionários: 

“Mas e as equipes? Vão continuar vindo?”, perguntei. 

Se não era seguro para os visitantes, também não seria para os trabalhadores. E qualquer coisa que pudesse cair na cabeça deles também poderia cair na minha, na da bibliotecária ou na de qualquer outro funcionário. 

Apesar de ser vice-diretora, quando a questionei, não tinha consciência das consequências da minha fala e me lembro como se fosse hoje da expressão no rosto dela, que – entendi imediatamente – queria dizer que eu estava certa: o correto seria desocupar o Museu inteiro.

Aconteceu da noite para o dia. 

No domingo, todos os funcionários foram avisados por mensagem e, na segunda, já estávamos proibidos de entrar no prédio. Fizemos uma reunião emergencial em um endereço vizinho, que alugávamos como ponto de apoio. Acho que esse foi um dos dias mais difíceis que nós todos já passamos no Museu. 

A decisão foi intempestiva e muita gente a considerou como um grande exagero. Por outro lado, ainda hoje acredito que, se não fosse dessa maneira, o Museu permaneceria aberto e iríamos continuar sem uma solução adequada até acontecer uma tragédia. 

Não sei se outro diretor teria tido a mesma coragem da Sheila, mas ela era da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, não estava conectada ao dia a dia da instituição, às disputas e vaidades, e era extremamente profissional. A professora Sheila trouxe um olhar externo para uma situação muito grave que, por estarmos nela, havíamos de certo modo naturalizado. 

Por isso, quando me recordo, fico com a impressão de que, por ser docente do Museu, eu é quem tive de lidar com o burburinho de que nós éramos exageradas e de que não havia motivo para tanto. 

Sempre fui uma pessoa de bastidor e não me envolvia em política. Mas, de repente, me vi na linha de frente, porque não bastava fechar as portas para os problemas serem resolvidos. Esse era só um primeiro passo, um passo pequeno comparado com o fato de que, a partir daquele momento, precisávamos viabilizar a reforma do Museu. 

O caso do Museu motivou um movimento político na Universidade. Um movimento voltado a alterar as regras para a eleição de diretores de museus! Regras restritivas que seguem em vigor – nos museus, a eleição conta com um corpo de eleitores que extrapola a instituição, diferentemente das faculdades e escolas. Quem elege as chapas para a direção dos museus são representantes de colegiados das “unidades afins” selecionadas pelos próprios museus, além do Conselho Deliberativo da instituição. Essas alterações tornaram a eleição para direção nos museus menos endógena. Como se os museus não tivessem condições de, assim como as unidades de ensino, decidirem sobre quem irá dirigir o museu a partir de seus colegiados apenas. Naquele momento, com as novas regras, eu era a única com condições de ser candidata “da casa”, por ter livre-docência. 

A pressão para que eu me candidatasse foi enorme, e não me esqueço do dia em que apresentei as ideias da minha chapa. Apoiada pelos colegas docentes (não todos, mas a maioria), saí em defesa da desocupação do prédio para fazer a reforma, com a proposta de alugar casas para a equipe e para a transferência do acervo. Já os candidatos da chapa concorrente, que era formada por pessoas externas ao Museu, achavam que seria possível fazer a obra com tudo que estava dentro. 

Era totalmente impensável e, mesmo assim, ouvi de colegas que a minha proposta não fazia sentido. Acho que essa reação, exacerbada, estava associada ao fato de eu ser mulher. O outro candidato era um engenheiro. Eu fiquei com a impressão de que, o discurso subliminar era – deixe obras e assuntos desse tipo para engenheiros (homens)… Eu contava com a professora Rosaria Ono, que convidei para ser minha vice-diretora. A professora Rosaria é respeitadíssima na área de prevenção contra incêndios em museus, inclusive, e deu total apoio às ideias que eu trouxe, e que representavam o desejo da maioria dos meus colegas docentes. 

Quando venci, foi uma reviravolta. Foi inesperado. 

Alugamos as casas, e usamos a verba de um projeto da Fapesp para o acondicionamento da coleção. Fomos, aos poucos, provando que sabíamos o que estávamos fazendo. 

Durante a minha gestão, também consegui implementar as bases para o que considero a minha principal marca, que foi a criação da Fundação de Apoio ao Museu Paulista, a FAAMP. Esse era um dos itens da pauta para a minha gestão. A experiência vivida com o fechamento do edifício do Museu do Ipiranga havia levantado o alerta de que não era possível depender exclusivamente de uma única fonte orçamentária – a da Universidade. E essa consciência se ampliou quando comecei a olhar as unidades de ensino bem sucedidas da Universidade – todas contavam com fundações de apoio.

Assim, desde que soube que iria me candidatar ao cargo, comecei a estudar sobre gestão e li muito sobre sustentabilidade. Estava claro para mim que não dava para depender somente da Universidade para resolver todos os problemas do Museu porque foi justamente essa situação que nos colocou onde estávamos. 

Sabe aquela coisa de nunca colocar todas as moedas em um mesmo saquinho? O cuidado de não ter um único backup? 

Quando comecei a expor essas ideias, o impacto não era positivo, enfrentei muita resistência. Algumas pessoas, inclusive, diziam que eu estava querendo privatizar o Museu. 

Uma visão totalmente errônea. Porque, na prática, a Universidade continuaria sustentando o corpo de funcionários e a estrutura básica, mas a Fundação atrairia os patrocinadores para viabilizar outros projetos. E, na prática, isso acontecia em várias unidades. Só não acontecia nos museus.

É curioso pensar que, quando eu era estudante de História, meu principal interesse era o patrimônio da cidade. Cheguei a fazer estágio, por quase três anos, no Departamento do Patrimônio Histórico, e minha função era pesquisar imóveis com interesse patrimonial, para indicá-los depois para o tombamento. 

Minha vida era ir em cartório de títulos para levantar escrituras antigas, e compilar inventários. E também ia muito ao Museu do Ipiranga consultar o Arquivo Aguirra, que é uma importante fonte documental sobre a formação territorial, imobiliária e cartográfica de São Paulo. 

Conheci o Museu assim, como uma pesquisadora típica, antes de imaginar que um dia estaria lutando para mantê-lo funcionando. 

Na faculdade, achava que seguiria trabalhando por muito tempo no DPH, mas acabei me aproximando do professor Ulpiano Bezerra de Menezes, que, nos anos 1990, foi um dos diretores do Museu. Foi na sua época que o Museu deixou de abrigar coleções de Arqueologia e Etnologia para se transformar em um espaço dedicado exclusivamente à História e à Cultura Material.

No curso de História, ele era tido como uma referência e todo mundo morria de medo dele. Mas ele era uma referência importante mesmo, especialmente para quem estava trabalhando com patrimônio, como no meu caso, estagiária do DPH. Então, apesar do receio, aproveitei o contato como aluna e resolvi convidá-lo para ser orientador do grupo de estudos que participava com mais algumas colegas. Foi com a orientação dele, inclusive, que nós lemos o antropólogo Néstor García Canclini, ou Mirko Lauer, e discutimos a forma como a América Latina mistura tradições locais, cultura erudita e cultura de massa.

Então, por toda essa relação, assim que ele assumiu a direção do Museu, acabou me incentivando a prestar o concurso para historiógrafa. 

O Ipiranga, nessa época, tinha muitos funcionários antigos, de outras gerações, e junto comigo, entraram mais quatro ou cinco pessoas. Vendo hoje, acho que o professor Ulpiano se aproveitou dessa característica para bolar um plano e implantar uma nova cultura no Museu, algo que a gente carrega até hoje.

E qual foi a jogada de mestre? 

Ele sabia que nenhuma instituição vai adiante sem uma cultura colaborativa, porque nada funciona enquanto um puxa o tapete do outro. E, claro, como toda instituição pública, no Ipiranga existiam ilhas de poder. Então, tendo o conhecimento disso, o professor montou grupos de trabalhos com pessoas de setores distintos e nos colocou, jovenzinhas, para coordenar cada um deles, porque éramos justamente as pessoas que não tinham conhecimento sobre quem gostava de quem, quem brigava com quem. 

Ficou todo mundo misturado e os processos se tornaram mais horizontais já que as informações passaram a ser compartilhadas entre todos. E acho que foi o segredo para que nós conseguíssemos realizar todos os levantamentos, para sugerir aquisições tanto para a biblioteca como para o acervo. Sem contar que, justamente no período em que entramos, a direção do Museu havia decidido implantar um banco de dados e isso fez com que todas as áreas se empenhassem na catalogação dos objetos. Claro, todo esse processo envolvia momentos de tensão, das relações entre aqueles da nova geração e quem já estava há décadas no Museu. Mas eu guardo mais lembranças dos avanços, pois acho que mesmo aqueles que estranharam a nova forma de trabalhar, conseguiram intuir que isso poderia ser benéfico para o museu. Não sei. 

Mas, sobre o banco de dados. Não esqueçam que estávamos na década de 1990. Ou seja, a informatização estava engatinhando e tínhamos um único computador para fazer a inserção de dados. 

Trabalhávamos como loucas, mas era muito estimulante. 

Nesse período, e em boa parte da minha vida no Museu – mais de 10 anos –, ocupei um cargo de historiógrafa, mas em 2004 resolvi prestar o concurso para docente. A Universidade estava buscando formas de acomodar e regularizar essas funções nos museus. Havia a possibilidade de continuar como pesquisadora, mas a carreira de docente havia sido implementada nos museus na década anterior, uma vitória importante para os museus. Atuar como docente  daria mais oportunidades de crescimento. 

As memórias que tenho mais marcantes, no entanto, não são da sala de aula, mas remetem ao período em que meu local de trabalho era a sala de Arquivo e Documentação, com a equipe técnica e muitos estagiários e estagiárias, estudantes não só de História, mas de diferentes áreas da USP. Essa sempre foi uma das maiores riquezas do Museu: reunir pessoas, estudantes ou profissionais, de diferentes áreas. Como o espaço do Arquivo era aberto ao público, ali também era o lugar onde as pessoas se dirigiam com itens embaixo do braço para doar. 

Nesses anos, um caso que me marcou muito foi a visita de um casal de velhinhos. Eles chegaram com uma coleção de cardápios do restaurante de um hotel chiquérrimo que funcionava do lado do Theatro Municipal. O pai desse senhor tinha entrado lá como garçom, se tornou maître (gerente) e chegou a organizar os jantares de políticos importantes como Getúlio Vargas. 

Lembro que achei uma sensibilidade incrível da parte do casal porque as pessoas geralmente não imaginam que algo tão efêmero como um cardápio pode interessar a um museu, e aproveitei para conferir se eles tinham álbuns de família. 

“Ah, jogamos tudo fora. Não temos filhos e achamos que ninguém fosse se interessar pela nossa vida”, eles responderam. 

Fiquei sem acreditar e me emocionei, quase às lágrimas, por pensar que eles guardaram os cardápios e descartaram as fotografias. 

No mesmo período, a gente estava negociando a coleção de uma família libanesa supertradicional, que estava nos oferecendo cópias dos álbuns dela. É evidente que só agradecemos, pois não aceitaríamos nada que não fosse original, mas, quando encontrei aquele casal, percebi como as pessoas de camadas sociais mais baixas não acham que a sua história pertence ao museu, enquanto a elite entende essa representação como totalmente natural. 

É o tipo de coisa que foi me dando a dimensão da responsabilidade que tinha, porque, quando somos mais jovens, acabamos fascinados por coisas extraordinárias, mas, com o tempo, vemos que o que realmente importa é a expectativa que o público coloca sobre o Museu. 

A pergunta fundamental é: por que alguém procura um Museu para doar algo? Para ser reconhecido. E me emociono toda vez que penso que o Ipiranga pode oferecer esse reconhecimento. 

Muito recentemente, a gente recebeu a coleção da Nery Rezende, que é de chorar, porque ela se tornou a maior coleção de uma mulher preta, trabalhadora da indústria e do comércio, e mãe solteira. E, antes disso, o Museu não tinha nada que pudesse ser considerado como o retrato da mulher brasileira – a maior parte do que está nas instituições leva o nome de homens. Durante muito tempo, foram eles os únicos que tiveram a prerrogativa de serem reconhecidos publicamente. 

Por isso, acho que a gente está vivendo o melhor período do Museu e considero o máximo pensar que em 2027, no próximo ano, eu me aposento, mas poderei fazer isso com a consciência de que contribuí para uma instituição assim. E se tem uma área onde o etarismo não é tão violento, essa área é a docência, porque nela posso me aposentar e continuar dando aulas ou virar uma pesquisadora sênior, que é o que eu quero. 

Não sei dizer ainda o que irei estudar e confesso que me sinto quase no direito de dar um respiro. Porque, com certeza, boa parte dos meus cabelos brancos nasceram nesses últimos anos. Não tem como esvaziar um museu inteiro para reforma e ver uma carruagem descendo de guindaste sem impedir o coração de sair pela boca. 

Foram anos de tensão, medo e decisões extremamente difíceis. Mas também de aprendizado, de coragem e de construção coletiva. O Museu é um lugar muito especial do ponto de vista de suas equipes. A começar pelos docentes, meus pares. É acolhedor. Somos poucos, e nos damos muito, muito bem. As equipes técnicas se conhecem há anos, e eu tenho visto essas equipes se modificarem com novas gerações chegando. É um privilégio. A cultura institucional que o Plano Diretor idealizado pelo professor Ulpiano estruturou, lá atrás, em 1990, conseguiu se enraizar. Não sem tensões, é claro. A vida como ela é. Mas o saldo é muito positivo. 

Hoje, vendo o Museu vivo, aberto e pulsando, tenho a sensação de que valeu a pena cada noite mal dormida, cada dúvida e cada enfrentamento.

Porque, no fim, cuidar de um patrimônio como o Ipiranga é também cuidar das pessoas – inclusive daquelas que ainda não sabem que fazem parte dessa história.

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