Entrei para o Museu do Ipiranga como se fosse participar de uma maratona.
Tínhamos nove meses de trabalho para montar 12 exposições e cheguei a pensar que não iria conseguir porque uma tarefa desse tamanho demandaria pelo menos dois anos.
Tudo precisava ganhar forma a tempo da reabertura do Museu, em 7 de setembro de 2022.
Na produção executiva, eu estava no centro desse movimento – coordenando pessoas, processos e entregas, do desenho gráfico às minúcias da conservação.
Era um trabalho que exigia presença em muitas frentes ao mesmo tempo: dos ajustes nos testes de impressão das imagens às idas e vindas da revisão textual, passando pela cenografia e pelos itens que, pouco a pouco, avançavam na linha de montagem.
Nada era simples nem rápido.
Os textos de parede, por exemplo, passavam por várias mãos: partiam da curadoria, iam para o Educativo, que conferia se a linguagem era acessível, e voltavam para nova validação antes de avançarem para revisão e tradução.
Foi uma loucura, mas eu não perdia tempo.
Olhava todos os dias para as minhas metas e me virava do avesso para cumprir tudo dentro do prazo.
Mas em produções, imprevistos sempre acontecem.
Quando nós elaboramos os projetos expográficos, e contratamos o escritório que os desenvolveria, algo fundamental ficou de fora: o desenho dos suportes que sustentariam cada obra do acervo na parede.
Assim que percebemos, corremos para negociar a inclusão dessas peças no que havia sido acordado com o escritório. A resposta, porém, foi negativa. Para eles, tratava-se de um trabalho museológico e por isso caberia ao Museu não só desenhar os suportes, mas também calcular o peso que cada um deles conseguiria sustentar.
Acontece que eram 4 mil objetos.
Imagine o meu desespero.
Montamos uma força-tarefa, conseguimos desenhar tudo o que precisávamos e, depois de ouvir muitos nãos por causa do cronograma curto, finalmente achamos uma empresa que nos atendeu – que nos salvou.
Nunca esqueci a emoção desse fornecedor na abertura. Sua empresa vinha da aviação, um território distante do nosso universo, e ele nunca havia entrado no Museu do Ipiranga. Mas, naquele dia, era o seu trabalho que sustentava, literalmente, tudo o que estava exposto.
Fiquei com essa imagem porque, ao ver o semblante dele, lembrei de mim mesma.
Venho de uma família sem recursos. Durante toda a minha infância, tinha um único par de tênis para usar o ano inteiro. Se pisava em uma poça, era com ele ainda úmido que voltava à escola no dia seguinte.
Houve tempos em que a gente não tinha mais do que pão, café, leite e margarina e, nos lanches da tarde, inventávamos diferentes maneiras de preparar esses ingredientes para não enjoar de comer exatamente a mesma coisa todos os dias.
Pão com margarina mergulhado no café.
Sopa de café com leite e pães picadinhos.
Pão, margarina e recheio de café.
Minha mãe não terminou a sétima série e meu pai concluiu o primeiro grau por supletivo. Na minha família, fui a primeira a entrar na universidade, bolsista no curso de Propaganda e Marketing.
Os primeiros dois anos foram ótimos. Tinha Sociologia, Fotografia e História da Arte. Mas, quando fomos avançando para as disciplinas mais específicas, comecei a sentir que não teria escolhido o curso se tivesse tido alguma orientação vocacional.
Um dia, em sala de aula, tivemos um grande debate sobre a função do marketing. O professor nos provocou: nossa profissão atendia necessidades já existentes ou era ela a própria responsável por criar essas necessidades? A sala se dividiu e eu só pensava: o que estou fazendo aqui? É claro que o marketing criava necessidades.
Olhava para o envolvimento da turma toda, e relembrava a minha história.
Como é que, vindo de onde vim, vou conseguir estimular o consumo e me dedicar a tudo aquilo que considero supérfluo?
Mas a vida encontra seus caminhos. No decorrer do curso, acabei conversando com um professor historiador que precisava de alguém para a área de projetos do Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Eu morava no extremo Sul, no Jardim Ângela, e o Arquivo ficava na Zona Norte. Atravessava a cidade para trabalhar lá e, nos longos trajetos, os livros me faziam companhia. Foi ali que me encontrei, escrevendo projetos para tratar arquivos, higienizar e acondicionar documentos, digitalizá-los e assim por diante.
Quando cheguei ao Ipiranga, já tinha passado anos no Arquivo do Estado, e ganhado experiência tanto no Museu da Energia, na área de elaboração de projetos, como na unidade de museus da Secretaria de Cultura, onde acompanhava contratos de gestão relacionados a 19 museus estaduais.
Aos poucos, fui adquirindo um conhecimento profundo de Museologia. Lidava com um universo amplo: ia dos museus da Língua Portuguesa e do Futebol à Pinacoteca de São Paulo, passando depois por instituições de outros Estados.
Foram anos de mergulho nessa área, entendendo o que significava cuidar de espaços de patrimônio histórico e com potencial de transformação na vida das pessoas.
Quando soube da vaga no Ipiranga e fui fazer a entrevista, em 2019, percebi que tinha uma experiência sólida na estruturação e na gestão de editais, mas nunca tinha atuado na produção de uma exposição – exatamente o que a vaga exigia.
Será que daria conta?
Apesar da dúvida, encarei o desafio, como sempre fiz. E só depois tive noção do tamanho da responsabilidade que tinha assumido.
Para completar, no meio dessa missão, atravessei dois momentos difíceis na minha vida pessoal: a dor da partida dos meus sogros, que se foram com a pandemia da Covid-19, em março de 2021 e, nesse mesmo ano, meu marido foi aprovado em um concurso no Acre, para assumir justamente no ano de abertura do Museu.
Um grande conflito.
Ao mesmo tempo em que ele não poderia recusar a vaga, eu também não tinha como deixar o Museu naquele momento. Tinha sido uma luta estruturar os projetos, acompanhar todas as etapas e produzir tudo para ver o Ipiranga funcionando. Não fazia o menor sentido sair do trabalho justamente no momento de implantação daquilo que vinha me dedicando nos últimos anos.
No fim, meu marido foi e eu fiquei no Museu, sozinha, sem rede de apoio, com os meus dois filhos. O Antônio Pedro tinha 10 anos e a Alice estava só com cinco.
Era o projeto da minha vida, não poderia abandoná-lo jamais.
Em todos os lugares por onde passei, sempre encontrei realização,


mas nada se compara ao que vivi no Museu. Na Secretaria da Cultura, a responsabilidade era imensa, com gestão de um orçamento na ordem de 100 milhões por ano. Ainda assim, o Ipiranga foi a realização mais grandiosa da minha trajetória.
No dia da abertura, fui tomada por um sentimento de orgulho que nunca tinha acessado, e não cansava de repetir para mim mesma que tinha sido capaz.
Depois, quando a emoção se assentou, e finalmente consegui observar o que me cercava, a principal surpresa foi ver os meus filhos ali, curiosos e maravilhados, descobrindo desde cedo a sensação de estar em um Museu.
Eu não tive essa oportunidade.
Na escola pública onde estudei, museu não fazia sequer parte do vocabulário. Os passeios se limitavam ao Jardim Zoológico, ao Playcenter e à fábrica da Coca-Cola.
Foi só aos 15 anos, já na escola técnica, que entrei pela primeira vez no Museu de Imagem e do Som, quando uma professora de Artes nos incentivou a ver uma exposição sobre a história da propaganda.
Não sei explicar, mas lá entendi que não havia uma única forma de olhar o mundo. Aprendi que eu podia “pesquisar”. No fim, acho que os museus são esses espaços de deslocamento, onde a realidade se amplia e nós vemos além do que estamos acostumados. Ora, eu pesquisava para as tarefas escolares, mas foi num museu que isso realmente fez sentido.
Que incrível ter acesso a tudo isso.
Por isso, se hoje estou em um casamento à distância, com o meu marido a mais de 3 mil quilômetros de São Paulo, e preciso lidar, todos os dias, com a falta que ele me faz e com a saudade que as crianças sentem dele, é porque tenho o Ipiranga como parte de mim – algo indissociável da minha identidade.
O Museu é o meu projeto de vida. Toda vez que estou nele, e vejo a carinha dos estudantes – muitos pisando ali pela primeira vez –, sinto que escolhi o caminho certo.
E torço para que aconteça com eles o mesmo que aconteceu comigo.


