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Ipiranga Museum

Não tinha três meses no Museu Republicano de Itu e achei que seria demitida.

Tinha acabado de completar 18 anos e não fazia a menor ideia do que era trabalhar em um Museu, muito menos o que significava o cargo de técnico de documentação. Quando soube do concurso, me inscrevi no impulso, movida mais pela vontade de ser independente e ter o meu próprio dinheiro do que por qualquer noção do que aquilo realmente implicava.

Foi só na prática que comecei a entender o que era ser funcionária pública em uma biblioteca de uma instituição museológica.

Minha primeira função foi aplicar códigos de barras em toda a coleção de Prudente de Moraes.

As publicações ficavam guardadas dentro do Museu, num gabinete de móveis antigos: mesa pesada e cadeiras de madeira que pareciam não suportar peso algum. 

Passava os dias em pé, apoiando os livros sobre a superfície gasta da mesa. Eram horas repetindo o mesmo gesto, etiqueta após etiqueta, até que o meu corpo começou a ceder. O expediente já se aproximava do fim, percebi uma cadeira um pouco mais afastada, com aparência firme, e a promessa de descanso venceu o excesso de cuidado.

Sentei. A palha afundou de imediato, como se estivesse apenas esperando por mim. 

Tomei um susto e, antes que pudesse me recuperar, fui tomada pela culpa, pois logo percebi que não era só uma cadeira que tinha acabado de quebrar, mas algo que carregava, discretamente, as iniciais de Prudente de Moraes.

Fiquei tão nervosa que comecei a rezar! Fui até a supervisora tremendo, com a certeza quase absoluta de que seria mandada embora. Mas, por sorte, ela fez algumas ligações, e a equipe de restauro acabou assumindo a encrenca.

O trauma foi tamanho que, até hoje, não fui atrás de saber o destino daquela cadeira –  e olha que já se passaram vinte anos.

Antes de entrar no Museu, eu imaginava a biblioteca como um lugar de silêncio, e a bibliotecária como uma espécie de professora, sempre disponível para transmitir seu conhecimento a quem chegasse em busca de pesquisa.

A realidade, no entanto, era outra. Minha contribuição se reduzia, em grande parte, a tarefas mecânicas e braçais. E mal tinha me recuperado do cansaço imposto pela coleção de Prudente de Moraes quando já estava diante de outro trabalho: o tombamento das publicações do professor Edgard Carone.

Eram 27 mil livros e um único carimbo mecânico para numerar toda a coleção. Como se não bastasse, o aparelho era antigo, funcionava mal e exigia uma força desproporcional, mais tinta do que deveria e uma atenção redobrada para que o excesso não se espalhasse pelas páginas como uma mancha irreversível.

Além disso, muitos livros chegavam cobertos por um pó fino, esbranquiçado. Só mais tarde descobri que se tratava de hexaclorocicloexano, um inseticida tóxico, hoje proibido.

O resultado foi uma rinite alérgica aguda que se tornou crônica, e que nem a máscara conseguia conter.

Eu trabalhava seis horas por dia, fazia faculdade à noite e seguia sem pausa. Ainda assim, o contato constante com os livros ia abrindo outras frestas: a cada página folheada, surgia uma curiosidade que eu levava adiante no horário de almoço.

Li O Capital, de Marx, e uma infinidade de textos sobre a ditadura, mas também manuais de etiqueta e relatos de viagem. Ia de publicações com imagens de tortura e rostos feridos à descrição minuciosa da forma correta de usar talheres e guardanapos, ou dos cuidados necessários para receber visitas em jantares.

Era sempre assim – um livro chamando outro. “Esse é interessante”, eu pensava. “Quero ver melhor.” E, aos poucos, eles iam se acumulando na minha mesa.

Ainda assim, depois de alguns anos, eu já pensava em desistir. Não era que não gostasse do que fazia. Pelo contrário, eu gostava, mas me sentia desvalorizada com tarefas puramente mecânicas enquanto queria ter espaço para pensar e desenvolver reflexões que fossem mais profundas. E isso mudou assim que consegui migrar para a área de documentação e, depois, para a iconografia.

Assim que comecei, percebi que a catalogação ali obedecia a uma lógica distinta da biblioteca, onde cada item era tratado individualmente. Na documentação e na iconografia, trabalhava-se muitas vezes por conjuntos: agrupamentos cujo conteúdo permanecia em parte desconhecido, já que nem sempre os itens que os compunham estavam de fato listados.

Então tínhamos cerca de 6 mil peças minimamente descritas e, ao lado delas, outros 15 mil itens sobre os quais quase nada se sabia. Por isso, assumi essa tarefa e passei a abrir caixa por caixa, com atenção minuciosa, descrevendo e especificando o que até então permanecia apenas sugerido, como algo do que se tem uma ideia vaga. 

Cheguei a atender um consulente que buscava uma foto da praça da cidade. Ele precisava reconstruir a fachada de uma casa que havia sido demolida e procurava alguma referência do que ela tinha sido. Nós procuramos, procuramos, e não encontramos. Só depois, com a reorganização do acervo, a imagem apareceu. Tarde demais: a casa já tinha sido reconstruída e, no fim, pouco se parecia com a original. Fizeram o que era possível com o que tinham – e nós, naquele momento, não tínhamos como ajudar.

São quase quatro anos reorganizando o acervo, e é nessa tarefa que tenho depositado todo o meu conhecimento. Não se trata apenas de listar de qualquer jeito, mas de inscrever cada item dentro de um sistema que permita que ele seja encontrado por outras pessoas, depois de mim.

Se eu deixar de vir amanhã, alguém precisa conseguir continuar de onde parei.

Ainda é, em parte, um trabalho braçal, mas atravessado por muita pesquisa. E é nesse cruzamento que as coisas começam a aparecer.

No início, o que sabia sobre o Museu era o básico. Nada além de que funcionava no sobrado onde aconteceu a Convenção Republicana de Itu, em 1873, e que essa reunião foi o marco originário da campanha republicana e do Partido Republicano Paulista. 

Era o essencial aprendido na escola. Mas, quando se começa a consultar o acervo, esse contorno inicial logo se desfaz e outras camadas vão surgindo.

Nesse processo, fiz o levantamento da coleção, que inclui as fotografias dos convencionais – os participantes da reunião. Elas foram cedidas ao Museu e usadas como base para as pinturas que estão expostas, como as de Tarsila do Amaral e Oscar Pereira da Silva. 

São imagens que vimos tantas vezes que os nomes já se fixaram nelas. Ainda assim, ao percorrê-las mais uma vez, encontrei uma fotografia que destoava: a de um homem negro, sem identificação, sem qualquer referência. Uma presença sem nome.

E então surgem as perguntas. Quem era? Por que não foi identificado? Seria um dos convencionais? O que faz esse registro aqui?

Ainda assim, na década de 1870, a escravidão persistia no Brasil. Então seria possível que um homem negro estivesse entre eles?

 

 

 

 

 

Não temos essa resposta.

E é nesse ponto que o trabalho se prolonga, pois a catalogação não encerra as perguntas, mas as amplia. É nela que as informações vão sendo reunidas, organizadas, sustentadas, para que outros, depois, possam seguir a partir dali. 

Assim que comecei no Museu Republicano, foram duas surpresas. A primeira, a ligação entre o Museu de Itu e o Museu do Ipiranga, que juntos formam o Museu Paulista. A segunda, a descoberta de que ambos eram administrados pela Universidade de São Paulo.

Mais tarde, então, recuperei a memória da primeira vez em que estive no Ipiranga. 

Foi um dia cheio, numa excursão da escola: passamos também pelo Parque do Ibirapuera, pelo Museu de Zoologia, caminhamos pelo Parque da Independência. Mas o que ficou foi aquela sensação de não conseguir apreender tudo de uma vez e, sobretudo, a curiosidade sobre as pessoas que trabalhavam ali. 

Um pensamento não saía da minha cabeça: “O que será que é preciso estudar para trabalhar em um museu?”.

No fim, estudei engenharia elétrica – uma área na qual nunca cheguei a atuar –  enquanto me aproximava, de fato, das imagens e da catalogação, que acabaram ocupando outro lugar na minha trajetória.

Tenho muito orgulho do que aprendi ao longo desses anos, porque vejo uma bagagem construída aos poucos, com esforço, e que passa tanto pela conservação quanto pela organização do acervo.

Por isso, costumo me apresentar assim: “Trabalho para o Museu Republicano de Itu, para o Museu Paulista, e para a USP”.

Não sou professora, não estou diretamente ligada à produção de conhecimento, mas há quase vinte anos trabalho em uma instituição pública. E é nesse lugar que me reconheço hoje: como alguém que participa, à sua maneira, da construção da história e da memória coletiva.

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