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Ipiranga Museum

Assim que comecei a trabalhar no Museu do Ipiranga, me tornei o Senhor Henrique.

Logo eu, um biscateiro, fiquei admirado com tanta consideração.

Senhor Henrique pra cá.

Senhor Henrique pra lá. 

Antes disso, trabalhava por conta, prestando serviço de pintura, pedreiro e encanador. 

Aprendi tudo sozinho depois de um período “batendo lata”, como dizem os taxistas quando rodam a cidade sem passageiros. Comecei em casa, e borrei muita tinta até entender que cada superfície pede um cuidado diferente: madeira é madeira, parede é parede e vitrô é vitrô. 

Trabalho desde os 13 anos. Tirei carteira profissional de menor assim que podia e fui durante muito tempo office boy de uma construtora. Era aquele menino que andava pela cidade com uma pastinha no braço, pagando conta, levando recado e fazendo tudo a pé para economizar o dinheiro que recebia de condução.

A responsabilidade não era pouca. E até hoje não acredito quando lembro que os chefes me davam envelopes fechados, cheios de dinheiro, para que eu mesmo entregasse aos empregados da obra. Um garoto, pagando todo mundo. 

Menino, não sei por qual motivo, tinha uma vontade enorme de vestir farda. Tentei ingressar na Marinha, na Guarda Civil e cheguei a passar um período no Corpo de Bombeiros, mas estranhei muito o militarismo, com aquela coisa de “sim, senhor; não, senhor”. Também tenho 1,63, sou pequeno e, nesse ambiente, se você não tem estatura, nem adianta se iludir. 

Mas sou um baixinho de coração grande. 

E, quando saí dos Bombeiros, senti o drama, porque o Estado é bom cobrador, mas também é bom pagador. E depois do primeiro e do segundo mês sem nada, não tive outra opção a não ser pegar o pincel e o rolo. 

Como não tinha conhecimento na área, aprendi vendo o pessoal trabalhar. Ficava só observando para ir aprendendo as técnicas e não correr o risco de que alguém quisesse me cobrar pelos ensinamentos. De olhar, fui pegando o jeito, e então foram me chamando para fazer um servicinho aqui, outro lá.  

No início, trabalhava sozinho e, vocês sabem, andorinha sozinha não faz verão. 

Sempre tinha alguém prometendo serviço: um primo que queria pintura, um tio planejando melhorias na casa. Sem equipe, porém, o único jeito era aceitar um trabalho por vez, e as datas de fim e início nem sempre coincidiam. Além disso, mal se aproximavam as festas de fim do ano e todo mundo encerrava os planos de reforma e só pensava em comemorar. Eu ficava ali, quebrando galho, pedindo dinheiro emprestado. 

Um dia, conheci uma pessoa que me contou que trabalhava no Museu. 

“Se tiver vaga, me chama”, falei por falar.

E ele chamou. 

O pintor que trabalhava no Ipiranga estava saindo e surgiu a oportunidade. Achei que devia tentar, mas não pensei que fosse ser escolhido porque só tinha o ginasial completo e sabia que a Universidade de São Paulo valorizava quem carregava canudo. A minha certeza era a de que ia ficar para as baratinhas. Por sorte, havia só dois concorrentes.

Em 2000, quando a seleção aconteceu, a remuneração era de apenas R$ 500, não valia a pena. Só aceitei porque minha mãe e minha esposa me convenceram. As duas achavam que era importante ter um salário fixo e, graças a Deus, as ouvi. Com o tempo, e as vantagens de vale-alimentação, vale-refeição, plano de saúde, e o adicional de 5% a cada cinco anos, tudo foi melhorando. 

No início, era difícil manter o ritmo que tinha em outros trabalhos. Perdia horas prestando atenção nas ferramentas que estavam expostas. E ficava emocionado de encontrar nas vitrines os alicates, os arcos de pua e as torqueses que via meu pai manuseando quando era menino. 

Parece que tudo o que encontrava no Museu me impressionava. Se olhava para uma pintura do Benedito Calixto, como a Inundação da Várzea do Carmo, minha memória já resgatava as lembranças do centro de São Paulo, e eu automaticamente começava a comparar os cenários. Com a maquete de São Paulo em 1840, o mecanismo era o mesmo.  

Como as coisas mudam, não parava de pensar.

Você passa em um ponto hoje, os trabalhadores estão cavando. Quando retorna, os vê rebocando; e, pouco depois, está tudo pronto. Em dois anos, sobem um prédio. 

Aos poucos, é claro, fui me acostumando a trabalhar em um lugar que foi construído para ser um monumento e me habituei ao universo das exposições. E aí as demandas foram aumentando. Para além da pintura, passei a ajudar em outros setores. 

Cansei de resolver vazamentos e entupimentos. 

Chegava um batalhão de crianças com as escolas, e não dava outra: problema nas válvulas dos vasos. Tinha que conferir a caixa d’água, sangrar a bomba, alimentar de novo, até encher o tanque e o museu poder liberar a entrada nos banheiros. 

E toda vez que uma pessoa mudava de sala, ou vinha alguém novo para a diretoria, era eu o encarregado da mudança de móveis – subia mesa, descia mesa, para baixo, para cima. 

Também vivia arrumando tomada, puxando fio e fazia o que podia para ajudar na parte elétrica. Mas, se queimava o fusível e acabava energia, quem assumia eram os técnicos da USP. Nessa área, não há margem para erros. 

É um choque, e puf. Explode o coração na hora. 

Quando o Museu fechou suas portas, em 2013, não recebíamos mais o público, mas a manutenção não parou. Durante um bom tempo, continuei checando se estava tudo em ordem e indo ao prédio frequentemente para um reparo ou outro. 

Depois veio a construtora para iniciar as reformas, e só pensei: 

“Ixi, vai ser um trabalho. Vou ter que ficar dando dica, explicando onde está isso, onde está aquilo”.

Nada. Eles cercaram o edifício com tapumes. E foram fazendo, fazendo, fazendo. 

Eles do lado de dentro, e nós do lado de fora. 

E, agora, com a reabertura, o Museu mudou completamente. Há uma equipe com encanador, eletricista, engenheiro. A hidráulica está uma beleza. Instalaram uma caixa d’água moderna e tem até sprinklers, aqueles dispositivos contra incêndio que acionam a qualquer sinal de calor.

Estou desde então em um dos imóveis que foram alugados. Ao todo, são seis casas que abrigam a equipe da Fundação de Apoio ao Museu Paulista e os funcionários das áreas de administração, tecnologia e digital, além da Biblioteca e dos acervos de pinturas, tecidos e mobiliário. 

Temos outra estrutura, novos endereços, mas a minha área é a mesma. No começo, era tarefa que não acabava mais. Alguns espaços estavam em condições precárias e precisamos trocar fiação, corrigir vazamentos e modernizar uma série de coisas. Hoje, o dia a dia são serviços corriqueiros, mas contínuos. É um sifão que entope, um registro que infiltra, uma torneira que emperra – esses problemas diversos que vão acontecendo por conta do excesso de manuseio. 

E há sempre uma prateleira para instalar ou uma cadeira que necessita de conserto. Aí o pessoal chama e a gente chega correndo, aperta o parafuso e ajuda todo mundo a trabalhar.

Um edifício não fica sem manutenção. 

E me sinto importante se penso que estou fazendo algo benéfico para que a instituição continue funcionando.

 

 

 Acho que meu sentimento é este: estou nos imóveis, mas faço parte da equipe do Ipiranga. Sou um funcionário do Museu Paulista e estou aqui para atender a qualquer chamado. 

Às vezes, quando vou em alguma plenária e escuto os docentes falando, as palavras são tão difíceis que fico boiando. Meu vocabulário é simples, meu conhecimento é pouco.

Por isso, ver alguém como o Prof. Paulo César Garcez Marins me tratar com tanta estima, e me chamar de Senhor, é ter a certeza de que minha trajetória profissional foi um sucesso. 

Estou para me aposentar, está na hora. São 51 anos de contribuição, 26 só no Museu. 

O tempo passa, não dá para acreditar. Mas, poxa vida, eles viram em mim algo bom. 

Cumpri minha jornada.

 

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