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Ipiranga Museum

Quando eu era mais novo e entrava no Museu Republicano de Itu, pouco notava as exposições. É claro que ainda me lembro de algumas peças que estavam em exibição naquele período, como as liteiras e os instrumentos para tortura de pessoas escravizadas, que eram realmente assustadores. Mas o que mais me saltava aos olhos era o próprio casarão: a fachada, revestida de azulejos portugueses; os gradis de ferro, todos trabalhados; e as janelas, inúmeras e simétricas.

Nesse sobrado do século 19, onde aconteceu a Convenção Republicana de Itu, em 1873, a sensação era de que a própria arquitetura contava a sua história. O interior tinha o mobiliário da época, com cadeiras em estilo medalhão, lustres de cristal e papéis de parede originais. As portas, antigas, eram difíceis de abrir. E, quando estávamos no térreo, ouvíamos todos os passos de quem caminhava no andar acima pelo ranger do assoalho. 

Sou frequentador assíduo do espaço desde que tinha 13 anos, ou seja, minha relação com o Museu não começou com o acervo. Em 1988, montei um jornal com minha turma de escola, apresentei a iniciativa para o pessoal da instituição e eles acreditaram que a publicação poderia ter maior alcance. 

Eram dois cadernos de oito páginas com notícias sobre os principais acontecimentos de Itu: de entrevistas com candidatos à prefeitura até a famosa seção de recadinhos entre amigos e namorados. Para que eles fossem publicados, as pessoas iam pessoalmente ao Museu e depositavam suas mensagens em uma urna.

Antes dessa parceria, a gente recorria a máquinas de escrever e utilizava um mimeógrafo para fazer cópias, mas o Museu facilitou o processo ao nos emprestar seu único computador. Compartilhávamos o conteúdo das páginas com os funcionários, que digitavam e depois imprimiam o original em uma impressora matricial para que a gente tirasse xerox e distribuísse pela cidade. 

No entra e sai para produzir o jornal, os azulejos do saguão da entrada, com painéis que contam episódios da história de Itu, foram se tornando cada vez mais familiares. O conjunto de retratos dos Convencionais Republicanos – realizados a partir das mesmas orientações, independentemente de qual artista estivesse assinando a obra – também ia se fixando na minha memória.

Ao mesmo tempo, pelo fato do Museu Republicano ser um espaço consolidado na cidade, confesso que não refletia muito sobre o significado de tudo que via e tampouco sobre o funcionamento do espaço. Só fui entender que a instituição era uma das sedes do Museu Paulista, ao lado do Museu do Ipiranga, quando passei no concurso público e me tornei técnico de documentação e informação.  

Tinha 32 anos quando entrei na biblioteca, onde estou até hoje.

Minha primeira tarefa foi encontrar os exemplares físicos de uma lista com aproximadamente trezentos livros sobre o café, já que a gente tinha acabado de receber a doação do acervo do professor Edgard Carone. Foram vários meses olhando a lombada e o interior de cada um – e a coleção dele tinha mais de 26 mil volumes. 

Naquele período, o Museu Republicano promovia seminários sobre história do café e do açúcar. Todo ano vinham pesquisadores dos Estados Unidos, Colômbia, Bélgica, Cuba, Argentina e eu atendia a todos eles. Ficava deslumbrado porque não estava acostumado a esse ambiente de universidade pública, no qual podia trocar conhecimentos com pessoas do mundo inteiro. 

Cresci em uma casa onde os livros eram presentes, pois minha mãe era professora do ensino primário e minha avó trabalhava com encadernação de fascículos. Sempre consultei tudo – gibis, jornais, enciclopédias –, mas, desde que entrei no Museu, a minha relação com as publicações mudou. 

Comecei a me encantar com as ilustrações que via nas capas, com os diferentes tipos de encadernações e papéis e até mesmo com o tempo que cada um daqueles livros representava. O cheiro das páginas, as bordas envelhecidas, as dobras e as marcas de uso. 

Tudo me fascinava.

Logo no início da minha trajetória, passei a ler também alguns textos do Edgard Carone. Como o Centro de Estudos, onde a biblioteca se situa hoje, em uma casa próxima ao Museu, foi cedida à USP para receber sua coleção, queria conhecer mais sobre sua vida e obra.

Foi uma pesquisa que me ensinou imensamente. O Marxismo no Brasil, de autoria dele, por exemplo, é resultado de um trabalho desenvolvido por anos, e contextualiza o início desse movimento no país. O livro ainda referencia as principais publicações sobre o tema desde o início do século 20 e quase todas fazem parte da biblioteca que o Carone nos deixou, porque ele era aquela pessoa que gostava de examinar as estantes e descobrir raridades. 

Um verdadeiro bibliófilo, amante dos livros, que é como me vejo também.

O que realmente gosto é de entrar pelos corredores da biblioteca e pesquisar em suas fileiras. Meu maior prazer é descobrir um livro escondido, e me deter em seus detalhes, da edição às notas de rodapé.

Apesar de não ter conhecido o professor Carone pessoalmente, imagino que também era assim, porque seus alunos contam que ele liberava o acesso aos exemplares que guardava em seu apartamento, com a ideia de que todos pudessem pesquisar e manusear as obras. Por isso ainda me surpreendo quando recebo um pesquisador que responde “depois eu vejo” quando dou a chance de ele olhar o que ainda não está catalogado. Só fico pensando: “Como pode alguém da área de História não se interessar em ver uma estante de livros raros?”.

Foi dessa forma, organizando as obras nas prateleiras, que acabei encontrando o tema do meu mestrado: a Editora Flama. 

Comecei a reparar que, entre os grandes grupos editoriais – como a Nacional, a Brasiliense e a Civilização Brasileira –, estavam outros tantos menores, mas com trabalhos extremamente significativos. E nessa pesquisa me deparei com a coleção “Pensamento e Ação”, da Flama, que tratava sobretudo de economia política e socialismo. Por meio dessa série, fui percebendo a importância desse pequeno selo de que quase ninguém tinha ouvido falar.

Durante essa jornada, visitei diversas bibliotecas da USP e da Unicamp e adorava quando eu mesmo podia entrar para selecionar o material. Em algumas instituições, isso não acontece. É o bibliotecário quem separa os pedidos e entrega apenas o que você solicitou pelo sistema. Não é o mesmo que olhar por si próprio as lombadas, porque nesse processo aparece sempre alguma coisa que não estava no seu horizonte. 

Percebo que a experiência que tive ao percorrer outras bibliotecas também impactou o trabalho que desenvolvo, porque passei a ver o livro de outra forma. Na hora da catalogação, faço questão de documentar tudo: desde as dimensões até a existência de dedicatórias e marginália, que são os grifos, anotações e rabiscos que aparecem nas páginas. Tem quem não dê importância para isso, achando que vai atrasar o processo. Mas, ainda que aquela informação possa parecer indiferente, muitas vezes ela é exatamente o que o pesquisador procura. 

É aquilo que os investigadores falam sobre os bibliotecários estarem do outro lado do balcão. Existe a ideia de que, ali, há uma pessoa apenas prestando serviço, sem o conhecimento aprofundado sobre o material que disponibiliza. É uma visão equivocada e que refuto, principalmente porque carrego comigo o olhar de pesquisador e uma das minhas funções é justamente orientar a pesquisa. 

O privilégio de conhecer o acervo é o que faz com que a gente possa indicar fontes que estão além do que aquela pessoa selecionou. 

“Você pediu esse livro, mas tem um outro que pode ser relevante. Não quer ver?”

Eram coisas que eu não sabia antes, mas hoje tenho a certeza de que também contribuo para a reflexão de outros acadêmicos. Um dia, inclusive, atendi um pesquisador que estava estudando a Revolução de 1932 e nós começamos a conversar sobre a minha pesquisa em relação aos anos 1940, porque, apesar da diferença de data, o contexto era o mesmo. 

Assim que cheguei ao Museu e comecei a me inteirar dos seminários, eu permanecia nas dependências da biblioteca, que funcionava como um ponto de apoio para os convidados. Era só vez ou outra, quando trocava com uma colega, que conseguia ouvir as falas.

Na época, jamais poderia imaginar que algum dia faria parte da mesa de conferência, contribuindo para os debates. Em 2024, no lançamento do livro Museu Republicano “Convenção de Itu”: 100 anos em 100 objetos, por exemplo, assumi o papel de mediador da conversa. E, um ano antes, quando se comemorou o centenário de nascimento do Carone e nós realizamos uma mostra sobre ele, me juntei ao grupo de curadores. Tudo isso graças ao meu empenho e dedicação em cuidar do acervo.

A exposição ocupou as vitrines do corredor do Centro de Estudos e uma delas foi dedicada exclusivamente aos memoriais que ele escreveu – uma parte do acervo que não estava catalogada e que os outros só tomaram conhecimento por conta da minha experiência. 

Anos atrás, em uma viagem à Argentina, fiz questão de visitar os espaços de produção de conhecimento, como os museus e as universidades. Foi incrível estar em um país onde você vê as pessoas lendo o tempo todo, com livrarias e sebos espalhados por todos os lugares.

Entrei em vários desses locais e conheci, através dos livros, muito além da América Latina. Foi a continuidade de um percurso que começou cedo, no Museu Republicano.

Depois de tantas transformações, sinto que minha história se parte em dois tempos: antes e depois do Museu. Foi ali que meu olhar se alargou e que, pouco a pouco, fui me tornando alguém mais atento ao mundo. Na juventude, meu repertório ainda era estreito, e isso se refletia nas minhas relações. Atualmente, reconheço o valor dessas trocas e busco aprofundar, de maneira consciente, cada experiência e aprendizado.

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