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Ipiranga Museum

Sempre tive fascínio por imagens.

Desde pequeno, pegava livros e revistas que encontrava em casa e ficava horas observando aqueles minúsculos pontos de tinta – alguns maiores, outros menores, uns mais claros, outros mais escuros. Lembro que aproximava e afastava o meu rosto das páginas e não cansava de me surpreender quando, ao tomar certa distância, via os pontilhados se transformando em um rosto de mulher, uma lata de bebida ou uma paisagem. 

Morava em São Bernardo do Campo, município na região metropolitana de São Paulo que ficou famoso por conta da indústria automotiva. A cidade concentrou, por muito tempo, uma série de montadoras e não faltavam opções de cursos técnicos para quem quisesse seguir na área. 

Era uma época sem muita informação sobre oportunidades de carreira. Desse modo, acabei me matriculando tanto em mecânica geral, dentro da Mercedes Benz, como em desenho técnico, e os professores me indicavam a todo momento ótimas opções de estágio sem que eu me interessasse por nenhuma delas. 

Um dia, caminhando nas ruas da montadora, vi um senhor japonês de um lado para o outro com um tripé e uma câmera na mão. Não tinha ideia de que a fotografia poderia ser uma profissão, mas, quando vi aquela cena, tive certeza que seria o meu caminho.

Sabia que não tinha vocação para trabalhar em fábrica de carros, só que, quando contei aos meus supervisores sobre esse senhorzinho, descobri que eu poderia fazer um estágio de fotografia lá na Mercedes.  

O trabalho consistia em tirar fotos de peças desgastadas para auxiliar nos relatórios dos próprios veículos – óbvio, não existia nada mais chato. 

Foi lá, no entanto, que aprendi a manusear a câmera e fui pegando gosto pela fotografia. 

Nos anos 1980, a Kodak tinha recém-lançado um compêndio dessa área, com 18 volumes que ensinavam sobre o funcionamento da câmera e do filme, além de vários exemplos sobre como explorar a linguagem fotográfica. 

Era um livro caro, e eu não tinha os originais, mas consegui ter acesso a um resumo e passava os dias estudando tudo o que tinha ali. Com isso, acabei montando um laboratório em casa e ia, de forma autodidata, aprendendo cada vez mais. 

Foi nesse mesmo período que comecei a descobrir o que havia para além de São Bernardo. Junto à minha irmã, que era um pouco mais velha, passei a ir com frequência a São Paulo, onde visitávamos, sempre que podíamos, alguma exposição de arte. Até hoje me lembro de quando encontrei um livro do Cartier-Bresson na biblioteca do Centro Cultural São Paulo. 

Suas fotos, apesar de espontâneas, têm uma organização visual impressionante. As linhas, as sombras, e as formas geométricas se encaixam tão perfeitamente que parecem ter sido planejadas. São pessoas comuns em situações aparentemente corriqueiras, mas registradas de um modo muito tocante.  

Sei que muita gente o cita como uma referência e diz que, por causa do trabalho dele, decidiu se tornar fotógrafo. 

Não sei dizer se foi exatamente isso que aconteceu comigo, porque o que eu sinto é que sempre tive uma inclinação para a arte, mas não sabia o que fazer com aquilo. 

Desde criança, desenhava bem e adorava fazer retratos de observação. Quando minha mãe dormia, aproveitava que ela ficaria um bom tempo parada e pegava a minha caneta nanquim para desenhá-la. No mercadinho do meu cunhado, onde trabalhei por dois ou três anos, não conseguia guardar nada de qualquer jeito. Se tinha que organizar caixas de fósforo, ou rolos de papel higiênico, sempre arranjava uma maneira diferente de dispor os itens nas prateleiras, montando pirâmides ou outras formas geométricas.

É claro que o Cartier-Bresson, nesse sentido, foi uma inspiração, e hoje mesmo, se tivesse que escolher um nome, diria que o considero o maior. Mas, com aquele livro do Bresson, o que mudou foi a percepção de que, pela fotografia, era possível extrair beleza das situações mais cotidianas, como um menino brincando na rua ou uma senhora tomando café. 

Até encontrar o meu percurso, porém, fui de lugar a lugar. 

Do estágio no laboratório de imagens, passei para a marcenaria do meu irmão, mudei para um emprego de ilustrador, onde desenhava manuais de peças automotivas, e acabei em uma oficina de cerâmica como desenhista, copiando modelos que vinham do exterior e depois desenvolvendo coleções próprias de produtos. 

Só sei que, quando cheguei no Ipiranga, já tinha passado por tantos lugares e permanecido tão pouco em cada um deles que achei que a minha passagem aqui também seria transitória. O recorde havia sido cinco anos como fotógrafo de uma associação – nada que se compare ao meu tempo no Museu, onde estou há 30 anos. 

No início, minha função era fotografar os objetos do acervo, o que é algo aparentemente simples. A gente olha uma tela, plana, paradinha. Só pode ser fácil, não é?

Mas não, porque para conseguir uma imagem boa de uma pintura bidimensional é preciso um conhecimento técnico que poucos fotógrafos têm e que, naquela época, eu também não tinha.

Até conseguir desenvolver essa habilidade, tive que pesquisar muito e fui aprendendo o que funcionava mesmo na prática. Descobri, nesse processo, a importância dos filtros polarizadores, que funcionam quase como uma janela persiana – eles deixam passar apenas uma parte da luz, filtrando os raios que vêm de outras direções, e ajudando a reduzir os reflexos. 

E esse é um grande desafio para quem fotografa objetos, porque quanto mais brilhante eles forem, mais difícil será retratá-los. Na primeira vez que fotografei a coleção de porcelanas, inclusive, foi preciso desenvolver uma verdadeira gambiarra. Achei uns rolos de papéis vegetais que estavam esquecidos em uma sala e construí uma espécie de cabana na qual colocava as peças dentro e conseguia, assim, minimizar a luz refletida.

Outra dificuldade é o recuo necessário para capturar as peças de grandes dimensões. Quando a gente está em uma reserva técnica ou algum lugar apertado, a gente se vira como dá, mas o ideal é ter espaço. No Salão Nobre, por sorte, tivemos alguma margem para trabalhar porque o Independence or Death tem 4,15 metros de altura por 7,60 metros de largura. Ali, para não distorcer a imagem, a gente precisou fazer o clique em cima de um andaime, utilizando também um aparato enorme de iluminação e dois geradores de 1200 watts.  

O barato de tudo isso é pensar que nem mesmo o pintor ou o escultor vão ver as obras daquele jeito. E isso acontece porque o olho não consegue capturar as cores de forma tão pura – é impossível olhar para um quadro e ter a iluminação distribuída de forma igual. Por isso muitas vezes as pessoas dizem que a fotografia é mais nítida do que a coisa em si.

E não vou mentir que sinto um grande orgulho de ver essas imagens e de perceber que é por meio delas que muita gente terá a oportunidade de conhecer as obras – afinal, não é todo mundo que está em São Paulo e nem todas as peças estão expostas ao público durante todo o tempo. 

Sinto que, nesse processo, fui entendendo melhor a minha profissão. Quando comecei, havia uma ideia mítica do artista como alguém extraordinário, aquele que era ao mesmo tempo um gênio e um louco.

 

 

 

 

E isso me causou muito medo porque não me sentia nem gênio nem louco.

Mas, olhando para a minha trajetória, entendo hoje que é possível trabalhar com arte sem ser necessariamente um artista, e é o que faço no dia a dia do Museu quando procuro tirar fotos com excelência técnica. E aí sim surgem imagens que são artísticas e que considero bonitas, engraçadas e até mesmo comoventes.  

Nesses 30 anos, também sei que tive uma oportunidade que pouca gente tem, porque, aos poucos, fui conhecendo quase toda a coleção do Museu do Ipiranga. O curioso é que, apesar disso, não conseguiria citar um item pelo qual eu sinta especial afeto. E olha que já gastei bastante tempo refletindo sobre isso, tentando encaixar os fragmentos de memória e encontrar algo que fizesse meu coração bater mais forte.

“Socorro. Alguém me dê um coração. O que há de errado comigo?”, cheguei a pensar.

Mas o próprio Cartier-Bresson dizia que, como fotógrafos, não podemos ter nenhum tipo de preconceito – e isso inclui também, do outro lado, predileções. E há ainda uma frase do Leonardo Da Vinci sobre sermos como espelhos que refletem tudo e, ainda assim, permanecem puros. 

De certa forma, quando estou fotografando, o meu envolvimento é objetivo – o foco está totalmente direcionado para o que irá garantir a melhor imagem e, se a paixão intervir, certamente o resultado seria pior.

Por outro lado, durante muitos anos, estive completamente voltado para o acervo, com uma visão supertécnica, mas me sentia com pouca liberdade para fazer imagens que revelassem a minha percepção sobre o que estava sendo representado. 

E acho que recentemente consegui descobrir uma das minhas principais paixões: o retrato. O Arnold Newman, nesse sentido, é uma referência para mim. Em uma época em que os retratos eram feitos principalmente em estúdios, com fundos neutros e poses formais, ele começou a explorar a forma como as pessoas se integravam no ambiente. 

Todos os dias, então, eu saio da minha casa, na rua Bom Pastor, e vou a pé até a avenida Nazaré, na casa vizinha ao Museu onde trabalho todos os dias, em um percurso que atravessa o Parque da Independência. 

E mesmo quando digo que não vou registrar nada, nunca consigo. 

Sempre que passo em frente ao Museu, percebo que o meu olhar se volta para essa equação entre o que é estático – o edifício – e o que está em movimento – as pessoas. Porque são elas, afinal, que dão vida aos espaços, são elas que deram vida a tudo o que existe em nosso acervo e hoje está armazenado e acondicionado.

Talvez seja isso, afinal. 

Não é que tenha algo de errado com meu coração, é que não consigo me decidir pelo meu item preferido do acervo, porque só consigo ver toda a graça dos objetos quando eles são manuseados, no cotidiano, no rotineiro, por uma mão cheia de intenções e vida.

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