Skip to main content

Ipiranga Museum

Já ouviram aquela música do Fagner?

Meu amor que será de mim?
Quixeramobim.

É de lá que venho. Nasci e cresci nessa cidade do sertão do Ceará com esse nome que ninguém esquece: Quixeramobim.

Meus pais trabalhavam na roça e meus irmãos mais velhos não tiveram oportunidade de estudar, mal assinam o próprio nome. Depois, nos mudamos para o centro urbano, e consegui cursar até o ensino médio – comecei tarde, com 12 anos, estava na primeira série, em processo de alfabetização.

A cidade era tão pacata que era difícil até conseguir trabalho. Pegava serviços de limpeza, de babá, mas tudo de forma esporádica. Aos 22, reprovei no colegial, e essa notícia veio junto com um sentimento muito forte de que não era justo a minha mãe se esforçar tanto sem eu ter como ajudá-la.

Sempre fui muito madura e, nessa idade, já entendia que não podia me conformar com a mesma vida que meus pais tiveram. Eu era cheia de sonhos e tinha muita coragem.

Por isso aceitei o convite de uma família de amigos para tentar a sorte em São Paulo. O único problema era o dinheiro da passagem. Então conversei com a minha irmã, vendemos a máquina de costura que ela usava e assim eu vim, com uma mão na frente e outra atrás, em  uma viagem de ônibus que durou três dias. 

Graças a essas pessoas que me acolheram, enquanto não achava emprego, fazia bicos finalizando peças da metalúrgica em que elas trabalhavam. Era um serviço de solda, mas que podia ser feito fora da empresa para garantir alguma renda extra.  

Cheguei em fevereiro de 1986 e estipulei o prazo de quatro meses para arrumar um serviço fixo. Com a carteira de trabalho nas mãos, batia de porta em porta onde quer que visse um anúncio: ajudante geral, auxiliar de produção, o que fosse.

Até que um conhecido me disse que havia vaga no Museu do Ipiranga.

Lembro que anotei o endereço em um pedaço de papel e saí acompanhada de uma das filhas do casal onde estava hospedada. Andava pelo centro de São Paulo, diante de tantos arranhas-céus, e ainda me perguntava:

“Será que me acostumo a essa cidade?”.

Era totalmente inexperiente, uma “barriga-verde”, como chamam os novatos lá no Ceará.  Mas minha determinação era tanta que a cidade também me abraçou e hoje é como se tivesse nascido e crescido na capital. 

Entrei como a caçulinha do Museu do Ipiranga, a mais nova entre os funcionários, e nos três primeiros meses, ficava apavorada com medo de não passar pelo período de experiência. Tinha muito receio de não agradar e ficar desempregada novamente – os mais antigos me acalmavam.

Naquela época, a gente entrava sem nenhuma ideia do que era um museu, e ia descobrindo na rotina do dia a dia. Toda vez que passava algum professor ou educador, por exemplo, me aproximava discretamente, com os ouvidos bem abertos, só para ir aprendendo sobre o que eles diziam. 

O entrosamento com os colegas era dos melhores. A gente não passava uma data em branco e qualquer uma delas era motivo para comemorar. Nos reuníamos até para jogar futebol – eu era goleira – e, nas festas juninas, não tinha quem não viesse a caráter e participasse das quadrilhas. Vez ou outra, fazíamos gincanas com concurso de melhor fantasia. Já me vesti de Pedrinho, personagem do Castelo Rá-Tim-Bum, e meu grupo até cantava: 

Lava uma (mão)
Lava outra (mão)
Lava uma, lava outra (mão) 

Fora os amigos secretos. A gente assumia pseudônimos e deixava uma caixinha próxima ao elevador para poder trocar mensagens sem que a nossa identidade fosse revelada. Foram muitas risadas com as situações porque tínhamos que pegar os bilhetes escondidos para que ninguém desconfiasse quem era quem. Muitas vezes, via que tinha recado, mas fingia que não encontrava nada para despistar os outros colegas. 

A gente fazia de tudo. Se precisasse varrer, varríamos. Se tinha infiltração, era um corre-corre com gente de todos os setores pegando pano e puxando a água do chão. Pelo bem do Museu, assumíamos as mais diversas tarefas, como se estivéssemos cuidando de alguém da família.

Quando entrei na área de vigilância, cada funcionário da equipe cuidava de um único espaço. A minha sala era a dos leques e acho que, até hoje, consigo visualizar cada pedacinho dela. Subindo a escadaria, era a primeira do lado oeste. No fundo, estavam as casacas e os vestidos e, na frente, uma vitrine redonda com pentes e leques – todos abertos, lindos. As roupas eram de gala e os itens de uso cotidiano eram feitos com materiais tão finos que não saberia nem especificar.  

Acabei me apegando àqueles objetos e gostava de me ver rodeada por eles. Também sentia uma responsabilidade enorme em saber que estava diante de peças únicas, que não poderiam ser danificadas jamais, e isso fazia com que quisesse cuidar ainda melhor delas. 

E é claro que quase todo mundo perguntava se as indumentárias eram da família real – se os trajes pertenciam ao D. Pedro I e à Maria Leopoldina e se eles tinham mesmo morado naquele prédio. A gente respondia que não, lembrava a data de inauguração do Museu – 1895 – e explicava que, como o imperador brasileiro morreu sessenta anos antes, isso seria impossível. 

Foram dez anos nesse mesmo espaço e não teve um dia sequer que fiquei entediada. Com o tempo, no entanto, começamos a fazer um revezamento entre as salas porque alguns não achavam justo estar em locais considerados mais atraentes que os outros. Amava o lugar onde estava, mas concordei, e confesso que isso fez com que eu descobrisse novas preciosidades do acervo.

Quando estava diante de Carmo Floodplain, ficava reparando em cada detalhe da tela e toda vez descobria algum elemento a mais. Aquelas casas sendo invadidas pela água e os pássaros em meio à fumaça, voando para longe. Parecia que estavam até saindo do quadro, como se a pintura fosse viva. 

Nessa mudança, percebemos que uma funcionária tinha algumas regalias e continuou tendo um lugar cativo – ela ficava em uma sala com uma espécie de vão atrás da vitrine e por isso conseguia manter ali uma garrafa de café e outra de água. Então, enquanto todo mundo precisava se locomover para pegar um copo de bebida, ela ficava como a “profissional do mês” sem perder um minuto sequer distante das atividades. 

Não gosto de nenhuma injustiça e sempre tive coragem de questionar. Não sou uma pessoa acomodada e, quando vejo que algo pode melhorar, por que não falar? Se isso irá beneficiar o bom andamento do trabalho – tanto o meu, quanto o dos colegas –, não vejo por que não lutar pelo bem de todos. 

Acredito que tenho uma liderança inata, está no meu sangue, e as pessoas também veem isso em mim. Embora saiba que algumas percebem isso de forma negativa, acho que no geral essa característica é vista como positiva. Tanto que comecei a participar da Comissão de Segurança como representante dos funcionários de vigilância e, pouco depois, a diretoria me convidou para liderar a equipe. 

Primeiro relutei, pois sei que lidar com diferentes personalidades – cada um querendo algo do seu jeito – exige muita responsabilidade e jogo de cintura. Mas a direção me convenceu, argumentando que eu era a pessoa em quem meus colegas depositavam confiança. 

E nisso fiquei, pequenininha, com 1,56m de altura, sempre defendendo aquilo que achava correto para o Museu e para o bem-estar de todos.

 

Às vezes era desafiador e tinha que enfrentar uns homenzarrãos de quase dois metros de altura, mas me mantive firme por 16 anos.

O que buscava era o equilíbrio, e o meu maior contentamento era quando via tudo correndo bem, com as pessoas felizes nas suas funções. Do cuidado unicamente com as salas, passei a monitorar a equipe, mas o objetivo era exatamente igual: garantir que nada fosse danificado no Museu. Tinha que estar de olho em tudo, pois, se algo acontecesse com algum objeto, isso também recairia sobre mim, pois significaria que não estava suficientemente atenta. 

Quando você passa a ser encarregada por um grupo, a dinâmica muda e você começa a cuidar inclusive da vida profissional dos funcionários, pois, para que um trabalho corra bem, eles precisam se sentir acolhidos. Eram 22 funcionários orgânicos e 12 terceirizados. Lembro que, quando o museu fechou por conta de problemas estruturais, nós precisamos continuar fazendo o monitoramento do edifício. Sabia que não havia nenhum risco e que a estrutura não iria ceder em nada a ponto de alguém se machucar, mas fazia questão de me colocar na mesma posição que a deles. 

“Vou estar aqui todos os dias com vocês e não vou deixar ninguém sozinho”, dizia.

A vigilância é sempre a última a apagar a luz. 

Até o acervo ser transferido, e as reformas começarem, nós tínhamos que zelar por tudo que estava lá. Então, a gente continuava indo, e montamos um revezamento para fazer a ronda e verificar que tudo estava bem.

Já com a reabertura, acabei sendo alocada em outro endereço, porque decidiram dividir a vigilância entre o Museu do Ipiranga e os imóveis alugados para a equipe e para o acervo. Foi uma mudança dura e não é segredo para ninguém o quanto fiquei chateada.

No dia que me informaram dessa decisão, o baque foi imenso. Não consegui nem mesmo controlar as minhas emoções e hoje vejo que tive uma reação exasperada. 

Fiquei bastante tempo cuidando da segurança das casas locadas, mas depois fui convidada para assumir outros afazeres de infraestrutura. Hoje faço a catalogação dos documentos físicos e digitais que estão relacionados aos funcionários terceirizados, o que inclui desde os seguranças até os bombeiros civis. Estou gostando do que faço e muito feliz nessa nova tarefa. No início, achei que ia sofrer, mas sigo aprendendo tanto e fui tão bem recebida pela equipe que acredito que tomei a decisão certa. Mesmo assim, continuo aberta, claro, para retomar a parte operacional caso seja necessário. 

Continuo sem estar no Museu do Ipiranga. Porém, sempre que posso, dou um pulo para ver meus amigos que ainda trabalham no prédio, e acho que não tem um dia que não tire fotos ali em frente. É o meu trajeto para pegar o ônibus e faço selfies perto do Monumento à Independência, da escadaria e da fonte. Até hoje, fico maravilhada com o que vejo ali.  

Lembro como se fosse hoje quando entrei no edifício pela primeira vez. Sabem aquela sensação que a gente tem quando se apaixona e não sabe nem mesmo explicar por quê? É como o Fagner canta.

Meu amor que será de mim?

Primeiro vem o arrebatamento e, depois, quando nos damos conta, o envolvimento é tanto que não conseguimos nos desapegar: queremos cuidar e defender aquilo que temos como nosso. 

Meu vínculo com o Museu é tão profundo que é como se tivesse nascido para trabalhar lá. É onde criei raízes e aprendi a ser quem sou.

Quarenta anos depois, a minha paixão continua a mesma.

More interviews

Shirley - Shared Stories

Condominium meeting

When I was a history student and didn't have much of an idea about the field I would work in, I made a list of places where I could try for an internship, and I included the Ipiranga Museum on that list. I already knew the museum from my school days and was completely dazzled by the building, only

Read more >

The beams of the museum

I live in front of a silent mountain range, with that typical calm of the countryside. It's an exuberant green landscape, but common on the border between São Paulo and Minas Gerais. My wife and I chose Joanópolis because the city was close to a region where we've traveled all our lives, and

Read more >

Putting down roots

It all happened very quickly. In the same week, I had the interview, the medical exam, and I already started at the Ipiranga Museum. The job was for a cleaning assistant, and the person who interviewed me basically asked two questions: if I was willing to work in that area and if I would have a problem with the commute.

Read more >
Premium WordPress plugins