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Ipiranga Museum

Dizem que existem dois tipos de conservador. 

Um circula. Ministra cursos e oficinas, integra redes de pesquisa, participa de simpósios e publica trabalhos científicos. É reconhecido, sobretudo, pela capacidade de traduzir a prática em discurso, e de converter o fazer técnico em linguagem compartilhável.

O outro permanece no museu. Está na bancada, no laboratório, no contato direto com o objeto. Assume um trabalho silencioso, invisível, quase sem nome, mas sempre manual.

É como sou. 

Sempre fui, na verdade. Desde criança, meu impulso era o mesmo: abrir, desmontar, ver como as coisas eram por dentro. Brinquedos, rádios antigos, controles remotos, qualquer objeto que coubesse entre os dedos e pudesse ser desfeito – e depois refeito.

Havia um fascínio que nunca foi embora: esse interesse pelo contato direto com a matéria, por colocar a mão na massa.

No Museu, não foi diferente. Sou de Porto Feliz, uma cidade que fica a 20 quilômetros de Itu. Por essa proximidade, o Museu Republicano sempre fez parte do meu horizonte. Eu conhecia a origem como residência da família Almeida Prado; a inauguração como um memorial da República; e os acervos ligados a presidentes como Prudente de Moraes e Washington Luís.  

Mesmo assim, não foi a história oficial que me levou até lá. 

Foram as obras de restauro.

O edifício havia sido tombado pelo IPHAN e, em 1980, passou por uma série de intervenções para desfazer adaptações feitas ao longo do século 20 e recuperar sua configuração original, do século 19. 

Estavam reconstituindo alcovas, pisos, paredes e forros. Dentro disso tudo, a minha contribuição era bem simples: carregar livros.

Um amigo me chamou para o trabalho e não pensei duas vezes. Parecia fácil ser remunerado só para ajudar a transferir o acervo do Prudente de Moraes – por causa da reforma, as publicações precisaram mudar temporariamente de local. 

Naquele período, a cidade parecia atravessada por obras. Não sei explicar porquê, mas outros pontos também estavam passando por restauro. Como tudo era perto, cruzava o caminho dos restauradores com frequência. Eles me chamavam para ver o que faziam. E eu ia.

Passei tardes inteiras acompanhando a restauração das pinturas do teto da Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Aquilo me impressionava. Mas o que ficou, de verdade, não foi nada grandioso. E, sim, o que cabia nas mãos: 

Os papéis de jornais, livros e mapas. 

Gostava muito de ler. E meu pai aparecia sempre com publicações embaixo do braço. Semana após semana, trazia fascículos da editora Abril que ainda me lembro: eram cadernos ilustrados de ciência, que iam da velocidade das reações químicas às leis do movimento, da pressão atmosférica ao funcionamento das coisas mais comuns.

Eu lia tudo. Sem hierarquia. Sem escolha.

Era muito novo, tinha só 16 quando comecei no Museu Republicano, ainda como estagiário, depois da experiência carregando a biblioteca do Prudente de Moraes. Com 18, fui efetivado e passei a visitar com frequência o Museu do Ipiranga por conta do laboratório de papel que havia lá. Era para onde levava os mapas e livros de Itu que precisavam ser restaurados.

Foi ali que me encontrei. Tanto que, dois anos depois, quando abriu uma vaga permanente, consegui ser transferido para lá.  Não sei, mas gostava muito de trabalhar com o papel e minha afinidade era tanta que ir e voltar para outra cidade todos os dias nem me parecia cansativo.

Fui aprendendo no contato direto com o material.

Com a higienização mecânica, feita a seco, retirava o que se acumulava sobre o papel; na limpeza aquosa, deixava a água entrar de forma controlada, para soltar a sujeira sem comprometer a estrutura; e, nos enxertos, recompunha o que faltava com outro papel ajustado com cuidado, até desaparecer a própria intervenção.

Eram procedimentos de atenção contínua, assimilados no gesto e na repetição. 

No começo, gostava de abrir jornais antigos e encontrar notícias de outra época ainda intacta na superfície do tempo.

Nas caricaturas, Prudente de Moraes surgia em descompasso, sentado em cadeiras bambas, como se buscasse o equilíbrio entre as tensões que atravessavam seu governo. Já nos jornais, diante da “ameaça” da Guerra de Canudos, o nome de Prudente era garantia de que o país se mantinha de pé.

Com o tempo, porém, ficava claro que não podia sustentar esse ritmo, pois, se lia tudo, o trabalho parava. 

E nisso ia expandindo o meu interesse por outras áreas. Fiz curso de marcenaria, aprendi técnicas de solda e outros tantos trabalhos manuais. E o aprendizado entrava no Museu de forma natural: com ajustes em vitrines, intervenções nos suportes de exposição, montagens e desmontagens. 

Por volta de 2004 ou 2005, houve uma exposição com uma série de brinquedos em que fui chamado às pressas para ajudar na montagem. Estava tudo atrasado, havia uma instalação com placas de EVA no chão e ninguém estava conseguindo cortar as peças no ângulo certo. Então fui, e rapidinho, resolvi o corte.

Já com a restauração de telas, nunca avancei muito. Cheguei a fazer coisas simples, como fixar uma obra no chassi, ou até produzir o próprio suporte. Mas o retoque, nunca me atrevi. Na tela, sempre existe alguma camada pictórica que precisa ser recomposta, e é um ajuste que exige domínio da cor e não me sinto nem um pouco à vontade para fazer esse tipo de intervenção.

Enfim, o trabalho com papel sempre foi o que mais me interessou – era onde eu me reconhecia. Em 2006, porém, precisei voltar para Itu. Durante muitos anos, fiz o trajeto entre São Paulo e Porto Feliz todos os dias, mas, com o nascimento da minha filha, a rotina se tornou inviável e não tive outra opção senão pedir transferência.

Continuo como um dos funcionários mais antigos. Tanto no Museu Republicano como no Museu do Ipiranga, há apenas dois à minha frente: um com 50 anos de casa, outro com 47, enquanto eu tenho 43. 

Quando comecei, no entanto, o trabalho tinha outro nome e outro ritmo. Não se falava tanto em conservação, mas em restauro. Era mais direto, mais artesanal.

Já hoje, a gente conserva para não restaurar. 

Tudo o que se faz é periódico, e isso pode dar a impressão de que o trabalho é monótono. Os anos vão passando e, de certo modo, tudo parece igual, mas não é. Ao mesmo tempo que não consigo olhar para minha trajetória e marcar diferenças, todos os dias há algo a ser feito. O que permanece e o que sustenta o trabalho, é o contato diário com o acervo. É isso que se repete e  nunca se esgota. E é nisso que ele se torna, de fato, interessante.

A higienização constante do acervo é fundamental. Sem ela, o tempo se acumula de forma visível. 

No fim dos anos 1980 e início dos 90, as bibliotecas tinham muitos problemas com brocas e insetos, o que só acabou com uma rotina contínua de limpeza e um trabalho que recomeçava todos os dias, livro após livro, do primeiro ao último, do último ao primeiro.

 

Com esse padrão, até mesmo os fungos estão a ponto de desaparecer.

Mas a rotina não é tão repetitiva assim. Às vezes surge a necessidade de um móvel aqui, um suporte para um filtro de água ali – e a gente mesmo fabrica tudo, desde peças para exposição até móveis de escritório, armários de cozinha, o que for preciso.

Não tinha experiência com madeira e precisei aprender aos poucos. É um material muito diferente do papel – mais duro, mais exigente. E se no Museu do Ipiranga eu só chegava para a equipe de marcenaria e dizia o que precisava, no Museu Republicano de Itu eu meço, corto, lixo e faço todo o processo, o que muda completamente o olhar. 

E é aí que aparece um outro tipo de orgulho. Quando você entra numa exposição montada e reconhece o que passou pelas suas mãos, não dá nem para descrever.

Na exposição “A República em cena”, produzimos molduras e suportes, ajudamos na fixação das peças e resolvemos um monte de detalhes de última hora, incluindo até mesmo impressões que vieram com erros e precisaram ser adaptadas ali mesmo.

A montagem é o momento em que o tempo se perde e ficamos oito horas seguidas em pé sem nem notar quando é dia e quando é noite. Mas, quando tudo se organiza no espaço, vem essa sensação muito única de ver o conjunto pronto, sabendo que ele foi trabalhado por você. 

Ainda sinto falta do trabalho com papel. Há algo de muito particular em estar dentro de um laboratório, aplicando as técnicas que você conhece, acompanhando cada fase de perto. 

As etapas têm algo de envolvente: é um processo que exige atenção e se constrói aos poucos, no ritmo do próprio material. 

Apesar de que, hoje, o trabalho mudou de suporte, mas não de lógica. Continuo lidando com estruturas, ajustes, com aquilo que precisa ser feito para que algo permaneça e possa ser visto.

O papel ficou para trás como prática diária, mas não como referência. É nele que tudo começou – e é a partir dele que ainda entendo o que faço.

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